Discurso do Prof. Miguel Mota

após receber o grau de Doutor Honoris Causa
na Universidade de Évora, em 22 de Novembro de 2006

 

As minhas primeiras palavras são para agradecer à Universidade de Évora, na pessoa do seu Magnífico Reitor, a grande honra que acaba de me conceder.
Ao meu Amigo de longa data, Professor Luís Archer, agradeço as suas tão simpáticas palavras.
Senhor Dr. Jorge Sampaio,
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Évora,
Senhora Governadora Civil de Évora,
Senhora Deputada,
Digníssimas autoridades civis, judiciais, militares e religiosas,
Senhor Presidente do Conselho Científico,
Senhor Presidente do Conselho Pedagógico,
Senhores Professores,
Prezados Colegas,
Caros Estudantes,
Minhas Senhoras e meus Senhores,

a todos agradeço a vossa presença neste acto

Quando buscava o que seria um tema adequado para as palavras que me cumpria proferir neste acto, alguns problemas me surgiram.
Falar para uma audiência de tão alto nível exige certamente muito. Mas não é uma audiência de uma especialidade só. É de pessoas de muitas e variadas especialidades.
Gostaria de falar sobre um tema de Genética, a ciência a que dediquei toda a minha vida. Mas se falasse em pormenor dum problema restrito como, por exemplo, o movimento anafásico, quando os cromossomas filhos se separam e marcham para os pólos da célula, e da teoria que publiquei em 1957 - e que, embora citada largamente em "papers" e até em livros texto, só trinta anos depois começou a ser aceite - corria o risco de aborrecer aqueles a quem esse problema pouco diz.

Considerando um tema que tivesse interesse mais geral, decidi-me por um que tem andado pelo mundo com grande divulgação - a CLONAGEM.
E a razão de o escolher foi o facto de, surpreendentemente, ele aparecer em todo o mundo - e não apenas em Portugal - eivado de ideias erradas e distorção de conceitos, algo sempre indesejável em matéria de ciências.

 

C L O N A G E M

Como sabemos, durante muitos milhões de anos a vida na terra apenas conheceu a reprodução assexuada. Os organismos, todos constituídos por uma única célula, replicavam o seu código genético - uma molécula de DNA - para poder fornecer à célula filha uma cópia exacta, as duas moléculas, a antiga e a nova, separavam-se, e a célula dividia-se em duas, passando a existir dois organismos, com códigos genéticos absolutamente idênticos.
Este processo era excelente para a perpetuação da espécie e a manutenção das suas características principais. A variação dentro da espécie era limitada às mutações ocorridas no código genético do organismo ou a eventuais erros na replicação desse código. Esses acontecimentos eram raros, mesmo se nessa altura fossem mais abundantes os agentes mutagénicos, tais como radiações ionizantes ou alguns compostos químicos.
Se isso era uma vantagem para assegurar a manutenção das espécies com as suas características principais, tinha o inconveniente de tornar muito difícil a evolução, dada a muito baixa variabilidade genética dos organismos, para que sobrevivessem os mais aptos. E por imposição das alterações nas condições naturais, como as climáticas, que estavam em constante mutação, muitas espécies desapareceram por não haver indivíduos com capacidade de adaptação.

Deve ter sido para conseguir maior variabilidade genética que a natureza decidiu proceder a recombinação genética entre organismos e inventou o sexo.
O processo começou de forma tímida. Duas bactérias encostavam-se uma à outra e uma delas passava para a outra pelo menos uma parte do seu DNA.
Esse passo foi ampliado por três outras alterações cujo modo como se processaram também é muito mal conhecido:
- o aparecimento dos organismos eucarióticos;
- a passagem de organismos haplóides a diplóides, possivelmente pela fusão de duas células haplóides;
- e a associação de organismos unicelulares para virem a formar organismos pluricelulares.
Também apareceram novas funções, entre as quais avultam a fotossíntese (que permitiu que a atmosfera passasse a ter oxigénio, que anteriormente não possuía), a fixação do azoto e outras.

A evolução do processo reprodutivo sexuado (ou seja, da reprodução sexuada) prosseguiu até se chegar, em formas avançadas, ao dimorfismo sexual, em que, na mesma espécie, alguns organismos só produzem gâmetas masculinos e outros apenas gâmetas femininos, tanto em espécies vegetais como animais.

Mas a natureza não abandonou a reprodução assexuada. Ela continua a existir, muitas vezes na mesma espécie em que também há reprodução sexuada, pois tem a enorme vantagem de ser a única forma de perpetuar, na descendência, um genótipo heterozigótico. E quando o homem deseja, para sua conveniência, reproduzir uma planta heterozigótica, é à reprodução assexuada que recorre. Se ela não existisse era praticamente impossível à agricultura reproduzir integralmente uma pereira ou uma videira que dão frutos de alta qualidade, pois os seus descendentes por via sexuada, a partir das sementes, mostrariam a enorme variabilidade que é consequência da sua heterozigocidade, num xadrez mendeliano de enormes proporções.

A reprodução assexuada é, pois, muito velha. Mas o conceito de CLONE só recebeu esse nome em 1903 - fez recentemente cem anos (um século) - quando o agrónomo americano Herbert J. Webber, num artigo na "Science", propôs esse nome para "um conjunto de organismos derivados dum único por reprodução assexuada". Qualquer engenheiro agrónomo ou qualquer agricultor medianamente informado sabe que quando se fala do "clone X" da oliveira 'Galega' ou do "clone Y" da videira 'D. Maria' se está a falar dum grupo restrito de organismos dessas variedades que foram obtidos a partir dum único de qualquer delas, por reprodução assexuada.
Quando uma variedade duma espécie vegetal foi cultivada durante anos e em condições de meio diferentes, foi sendo submetida a uma pressão de selecção suficiente para que lhes passemos a encontrar diferenças genéticas. Por isso a selecção clonal, uma das mais simples formas do Melhoramento de Plantas, é a primeira ferramenta a usar no melhoramento de variedades com boas características e que foram cultivadas em diferentes condições de meio ambiente durante bastante tempo. A pequena mas significativa variabilidade (agora gostam de lhe chamar biodiversidade) que encontramos, dentro da mesma variedade, permite rapidamente a eleição de clones mais valiosos.

Para as pessoas mais ligadas à medicina eu costumo lembrar que a variedade está para o clone como os anticorpos policlonais estão para os anticorpos monoclonais. O nome de anticorpos monoclonais, aliás, foi-lhes dado por analogia com o correcto conceito de clone, pois são derivados duma única célula.

Como vemos, "clone" é um substantivo colectivo. Assim como nenhuma pessoa é "família", nenhum organismo isolado é "clone". Mas esse disparate, filho da ignorância, mesmo de quem tinha obrigação de não o cometer, é um dos erros que vemos pelo mundo e, naturalmente, também em Portugal. É bom que seja corrigido.

A propósito, um outro erro generalizado é a ideia de que todos os membros dum clone (os ignorantes dizem "todos os clones") são exactamente iguais. Não é exacto e um simples exemplo chega para o demonstrar. Se eu chegar a uma oliveira 'Galega' que escolhi por dar excelentes e muitas azeitonas, e cortar dez estacas e as plantar, obtenho um clone. À planta donde obtive essas estacas chamamos "cabeça de clone".
Mas se cinco dessas estacas forem plantadas num terreno muito fértil e bem regadas sempre que necessário, e as outras cinco num terreno muito pobre e sofrendo períodos de seca, esses dois grupos de árvores, embora possam manter umas características semelhantes, pois têm o mesmo código genético, serão bem diferentes em arborescência e até na sua produção. É que nas cinco árvores em condições de meio adversas, o seu código genético não pôde exprimir-se plenamente por o meio ambiente não lhe ter fornecido os materiais e as condições necessárias a que ele se pudesse exprimir na sua plenitude. Por vezes as pessoas esquecem-se que o código genético é apenas um "código", como o projecto duma casa. É o meio ambiente que deverá fornecer as condições e os materiais necessários à formação do organismo. Se faltar algum deles não será o código capaz de os fornecer.

Esta reprodução assexuada, que é fácil em muitas espécies vegetais, ainda não foi possível conseguir em mamíferos. Duma cultura de células vegetais é possível obter uma planta completa. Mas ainda ninguém foi capaz de obter um ratinho, uma cobaia ou um ser humano duma cultura de fibroblastos.
É um facto que também existe nos mamíferos, incluindo o homem, reprodução assexuada. É o que sucede na formação dos gémeos uniovulares ou gémeos idênticos. Um dos casos mais famosos ocorreu em 1934, no Canadá, quando a senhora Dionne deu à luz cinco gémeas uniovulares. Essas cinco meninas, Cécile, Annette, Emilie, Marie e Yvonne, constituíam um clone. Mas não com a mãe Dionne, pois a reprodução assexuada - divisões sucessivas do embrião - só aconteceu depois da reprodução sexuada que levou à fecundação do óvulo. A senhora Dionne não é a "cabeça de clone" das cinco gémeas.

A impossibilidade, até ao presente, de conseguir reproduzir um adulto a partir de algumas das suas células somáticas levou alguns cientistas a tentarem uma aproximação. A investigação realizada ao longo de algumas dezenas de anos tinha já fornecido ferramentas necessárias ao trabalho que pretendiam. A cultura de células e tecidos, após uma fugaz tentativa por Haberlandt, desenvolvera-se em grande escala a partir dos trabalhos de Alexis Carrell em 1910, durante alguns anos quase só com células animais. As culturas de células vegetais, que tiveram em Roger Gauteret, Philip White e outros os seus pioneiros, embora começando mais tarde, em breve as ultrapassavam e conseguiam o que as células animais não conseguiram ainda hoje: duma célula somática em cultura obter um organismo completo.

Na década de 1950, com os trabalhos de Briggs e King, desenvolveram-se as técnicas de transplantar núcleos dumas células para outras. Seguidamente, vêm as técnicas que permitiram fundir duas células somáticas até de organismos de espécies diferentes.
Diga-se de passagem, estas técnicas fizeram nascer esperanças, que até ao presente, ainda se não concretizaram, de conseguir por hibridação somática, alguns cruzamentos, impossíveis por via sexuada, que permitissem obter organismos combinando as boas características de duas ou mais espécies diferentes. É claro que o resultado também poderia ser um organismo com as más qualidades de cada uma delas.
A propósito desta possibilidade, costumo lembrar uma história, que não sei se é verdadeira, que se conta de Bernard Shaw, quando uma famosa e formosa artista de então lhe propôs terem um filho. Dizia ela como seria excelente dar origem a um ser com a beleza dela e a inteligência dele. Diz-se que Bernard Shaw recusou, dizendo que não queria correr o risco do filho ter a beleza dele e a inteligência dela.

A impossibilidade de obter um novo indivíduo a partir duma ou algumas células somáticas dum mamífero adulto, levou alguns cientistas, como disse, a tentarem uma aproximação.
Como do óvulo fecundado dum mamífero se obtém diferenciação num organismo adulto, resolveram substituir o seu núcleo pelo núcleo duma célula somática dum outro animal da mesma espécie. O caso é bem conhecido, pois foi muito divulgado por jornais e revistas.
Com células da glândula mamária duma ovelha fizeram uma cultura em meio artificial.
Duma outra ovelha obtiveram um óvulo e extraíram-lhe o núcleo, onde reside a grande maioria dos genes dum organismo. Com esse óvulo sem núcleo fundiram uma célula somática da cultura proveniente da glândula mamária da primeira ovelha. Depois, mantiveram esse óvulo a que tinha sido adicionada a célula somática em cultura e conseguiram que ele vivesse e sofresse algumas divisões, como qualquer embrião normal. Esse embrião foi depois introduzido no útero duma terceira ovelha, onde se desenvolveu normalmente e assim nasceu a Dolly.
As dificuldades da técnica são grandes, ao contrario do que se podia imaginar a partir da minha simples descrição. Os autores deste brilhante e muito meritório trabalho científico fizeram um elevado número de experiências semelhantes que não tiveram êxito. Mas isso é o normal em muitos trabalhos de investigação científica e abriu as portas às muitas experiências semelhantes, com espécies diferentes. Sem tirar mérito ao trabalho científico não posso deixar de assinalar o erro de chamar "clonagem" a este processo, para já não falar no erro de chamar "clone" à Dolly. No óvulo sem núcleo a que foi adicionada a célula somática, continuaram a existir mitocôndria, que também contêm DNA e, portanto, genes. E sabemos como alguns desses poucos genes mitocondriais podem ser importantes. Algumas deficiências genéticas em seres humanos são da responsabilidade de mutações nos genes mitocondriais.

A investigação que levou à obtenção da Dolly fez disparar pelo mundo trabalhos semelhantes e já foi aplicada a mesma técnica em muitas espécies de mamíferos. Estes estudos também têm contribuído para aperfeiçoar as técnicas de reprodução medicamente assistida na espécie humana. Alguns levantam problemas e consideram que não se devia continuar nestas linhas de trabalho.
Os enormes avanços das técnicas de reprodução medicamente assistida, que mesmo na espécie humana já entrou na rotina, com a fecundação in vitro e as outras modalidades a serem largamente utilizadas, dizem-nos que aplicar a esta espécie o que começou com a Dolly e já foi realizado em muitos outros mamíferos, não oferece dificuldades de concretização, salvo as que resultem de considerações de ordem ética ou moral.

A ciência foi durante muitos séculos a actividade dum reduzido número de pessoas. Nela se destacavam ocasionalmente nomes excepcionais, como Euclides e Pitágoras ou Leonardo Da Vinci. Começou a desenvolver-se mais no Século XIX mas foi no Século XX que se deu uma verdadeira explosão dessa actividade. Podemos, por isso, considerar o Século XX como o século da ciência, em todos os seus campos.
A Genética, embora tenha sido concebida ainda no Século XIX, teve uma longa "gestação" e só apareceu à luz no começo do Século XX e desenvolveu-se fulgurantemente durante esses cem anos, a um ritmo que não abranda neste início do Século XXI.
A ciência agronómica e a ciência médica, ao mesmo tempo que davam uma enorme contribuição para o desenvolvimento da Genética, aproveitavam-na de forma intensa, uma para alimentar a humanidade e a outra para dar ao Homo sapiens uma vida média mais longa e com melhor qualidade.

Não é visível, no horizonte humano, um abrandamento da investigação científica, que vai continuar a dar ao homem benefícios imensos, aumentando os nossos conhecimentos em todos os seus campos. É que tudo indica que, apesar desses conhecimentos serem já vastos, o universo do que não sabemos é, certamente, muito maior.

Muito obrigado
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