Publicado no "Público" de 9 de Agosto de 2000:

Sobre os recursos Genéticos do Alqueva

Miguel Mota*

O "Público de 22-6-2000 publicou um artigo sobre a "Arca de Noé para o Alqueva" em que se refere o pouco que se sabe do que vai suceder à fauna e à flora dos 25.000 hectares que vão ficar inundados.
O que irá suceder é que uma parte da fauna e praticamente toda a flora irão desaparecer para sempre.
Tal facto não é razão para que não se construa a barragem, nem mesmo podemos considerar que seja uma tragédia. Ao longo dos milhões de anos da terra nasceram e desapareceram milhões de espécies e a terra continua a girar. Mas há, certamente, uma perda, principalmente para a ecologia e para a agricultura, neste último caso com grande interesse económico.
Para a maior parte da flora, há processo simples e relativamente barato de salvar a biodiversidade - também designada como "recursos genéticos" - da área a inundar.
Para além do realizado em tempos mais antigos - e onde avulta o extraordinário trabalho do grande agrónomo e genetista russo Nicolai I. Vavilov - há algumas décadas que se vem realizando intenso trabalho para preservar, já não só as espécies, mas as suas muitas variedades, pela extraordinária riqueza genética que contêm, através da recolha de sementes e, nalguns casos, plantas ou partes de plantas para reprodução assexuada.
As sementes de muitas espécies - embora não todas - mantêm por muitos anos a capacidade de germinar quando guardadas relativamente secas - 3 a 6 % de humidade - e mantidas a baixa temperatura, normalmente da ordem dos -18 a -20º C.
São, assim, mantidas em "Bancos de Genes", verdadeiras "Arcas de Noé", exemplo perfeito e que costumo referir aos meus alunos como o primeiro banco de genes de que há memória. É nesses repositórios que se abastecem os agrónomos que trabalham em Melhoramento de Plantas, para obterem melhores combinações genéticas e poderem fornecer aos agricultores variedades melhores, mais produtivas, com mais resistências e melhor qualidade. O que a Genética já deu, neste campo, no século que agora finda, em muitos países do mundo e também alguma coisa em Portugal, constitui uma fortuna tal que, ao pé dela, o valor da Microsoft são trocos miúdos.
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Consciente do problema, abordei a EDIA (a empresa responsável pelo Alqueva) propondo um projecto de recolha sistemática, durante três anos, de sementes e algumas plantas nos 25.000 hectares a inundar. Foram-me facultados alguns elementos, como a delimitação da área a inundar e até me foi sugerido que incluísse no projecto também a área a inundar por mais três barragens pequenas, Pedrógão, Álamo e Loureiro, que não acrescentavam muito ao projecto.
A experiência que tínhamos adquirido neste tipo de trabalho enquanto pude dispor de financiamento internacional (principalmente do International Board for Plant Genetic Resources) permitira formar uma excelente equipa e recolher uns largos milhares de amostras de algumas espécies, principalmente de interesse agrícola ou com elas relacionadas. Esse material entrou no Banco de Genes do Departamento de Genética da Estação Agronómica Nacional, de que fui responsável durante largos anos.
Introduzimos, mesmo, algumas modificações que foram adoptadas internacionalmente.
Dispunha, assim, de todos os elementos para a elaboração do projecto de recolha sistemática do germoplasma vegetal dos 25.000 hectares e que incluía, também, a construção dum novo tipo de câmara de frio, diferente das que são geralmente usadas nos Bancos de Genes e que, pelas suas características, teria muitas probabilidades de vir a ser adoptada em todo o mundo.
(A propósito, as propostas que fiz a outras entidades para um projecto que abrangia a construção e ensaio de tal câmara foram sempre recusadas pelas entidades financiadoras da investigação, nalguns casos com os mais caricatos argumentos).
Em 27 de Junho de 1996 tive uma conversa com o senhor Presidente da EDIA, a quem apresentei e expliquei o projecto. Mostrei-lhe, com alguns exemplos dos muitos possíveis, do trabalho por nós realizado, o que era a biodiversidade que pretendíamos salvar. Um desses exemplos era uma fotografia de algumas dezenas de amostras de sementes duma única espécie - o Lupinus luteus, a vulgar tremocilha - duma área restrita - o Distrito de Beja - em que era evidente a grande variabilidade da morfologia das sementes, a fazer prever uma grande variabilidade de outras características fisiológicas e agronómicas de grande valor. Esse exemplo era generalizável a outras espécies e a outras regiões do País.
Também referi que, tanto quanto era do meu conhecimento, nunca se tinha realizado, no mundo, uma tal recolha sistemática na zona a ser inundada por uma barragem, o que tornava o trabalho português pioneiro e a propor que se fizesse trabalho idêntico sempre que, algures no mundo, se fosse construir uma barragem.
O Presidente mostrou-se interessado e disse-me que eu iria ser contactado por determinado técnico da EDIA, directamente responsável pelo sector.
Passados alguns meses e não tendo sido contactado pelo referido técnico, telefonei para o gabinete do Presidente. Não estava, mas a sua secretária, a quem relatei o assunto, disse-me que eu iria ser contactado pelo técnico.
Passou o tempo - já lá vão mais de quatro anos! - e, como não tivesse havido qualquer notícia, concluí, logicamente, que o Presidente não tinha considerado de interesse o projecto.
É pela existência de muitos casos como este que Portugal é um país atrasado na Ciência e na Agricultura.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado