Publicado no "Jornal de Oeiras" em 22-2-2005

Ensino e aprendizagem
Miguel Mota*

Desde a Declaração de Bolonha que está muito em voga a dualidade "ensino" e "aprendizagem". Declara-se que se deve deixar o "ensino", centrado no professor e adoptar a "aprendizagem", centrada no aluno.
Essa dualidade, de dois conceitos em oposição - um declarado "mau" e o outro "bom" - deixa-me perplexo. Sempre considerei - e pratiquei - que o ensino só existia para haver aprendizagem e, naturalmente, se alguém ensina, o professor, é ele o centro dessa actividade. Ensino é uma actividade destinada a transmitir conhecimentos, no sentido mais lato. A aprendizagem será o resultado desse ensino, de forma a que quem o recebe se enriqueça em conhecimentos, também no sentido mais lato. É óbvio que em qualquer ensino se deve adoptar a metodologia mais eficiente, de forma a que a transformação de quem recebe esse ensino, ou seja, quem faz a aprendizagem, se enriqueça o mais possível. O ensino de qualquer matéria nunca deve ser um acto de transferência passiva, como se transfere um líquido dum vaso para outro, mas antes implicando da parte de quem faz uma aprendizagem, ou seja, de quem recebe o ensino, um certo esforço para que a matéria aprendida fique em condições de ser racional e inteligentemente aplicada. Quando tal não sucede, ou só sucede incompletamente, estamos perante um mau ensino, que deve ser corrigido.
Nem mesmo quando estamos perante o que se designa por autodidatismo podemos considerar que não há "ensino". Este pode ser fornecido por leitura de livros, observação da natureza, etc. Ou seja, não me parece que em caso algum se deixe de considerar o ensino, centrado no professor - qualquer que ele seja - para que exista aprendizagem, obviamente centrada no aluno. Devemos, sim, quando a metodologia do ensino não é apropriada à aprendizagem que se pretende - algo que acontece com enorme frequência - envidar esforços para que seja corrigida, o que só vejo fazer em muito pequena escala, quando devia e podia ter uma dimensão muito maior. Isso é muito diferente de distorcer conceitos bem definidos.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética