Publicado no "Público" de 12 de Agosto de 1998:

Ainda a avaliação da Ciência

por Miguel Mota*

Um dos mais relevantes e dos mais usados internacionalmente elementos de avaliação da qualidade da investigação científica são as citações dos trabalhos científicos que aparecem noutros artigos científicos, em revistas ou livros texto. Quem não esteja familiarizado com o campo de trabalho dum investigador ou mesmo quem não seja cientista, pode fazer uma ideia muito significativa do valor da ciência produzida por uma instituição ou por um cientista, se tiver informação sobre o número de citações dos trabalhos dessa instituição ou desse investigador que aparecem nas revistas científicas de qualidade e, melhor ainda, quando se encontram em livros texto de nível internacional.
Mesmo com os pequenos defeitos que o sistema apresenta, é óbvio que, se os trabalhos dum investigador aparecem citados em muitos artigos publicados em revistas de categoria e, até, em livros texto de nível internacional, é porque estamos em presença dum cientista de alto nível. Se um investigador apenas apresenta um escasso número de citações dos seus escritos, ou é um cientista de escassos méritos, ou um principiante que ainda não deu provas suficientes. Quem pretender dizer o contrário, ou é mal intencionado e, fiado na pobreza intelectual do meio a que se dirige, não se importa de correr o risco de ser considerado um total ignorante destes assuntos, sem qualquer noção do que é a investigação científica, ou é mesmo um ignorante.
Este método tornou-se acessível a qualquer pessoa, mesmo fora da ciência, quando o "Institute of Scientific Information" (ISI), de Filadélfia, que já editava os "Current Contents" (uma publicação, em várias séries, para diferentes campos da ciência, que apresenta os índices dos artigos publicados em cada número duma selecção bastante vasta de revistas científicas), passou a editar também o "Science Citation Index".
O "Science Citation Index" publica a lista dos trabalhos de diferentes autores citados nas "Referências Bibliográficas" dos artigos indexados nos "Current Contents", quaisquer que sejam as revistas em que foram publicados. Como a lista das revistas indexadas nos "Current Contents" é bastante vasta, ela constitui uma boa selecção, a nível mundial.
Basta, portanto, consultar o "Science Citation Index" para se saber quais os trabalhos que citam um determinado autor. O valor duma instituição mede-se pelo somatório das citações dos trabalhos dos seus investigadores.
No artigo "A avaliação da ciência" ("Público" de 12 de Agosto de 1997) já referi estes aspectos mas o facto de o "Público" de 7 de Maio de 1998 ter tratado deste assunto ("Quem faz mais ciência em Portugal?"), citando alguns números publicados no dia anterior pelo Ministério da Ciência e Tecnologia "sobre a produção científica nos anos de 1995, 1996 e 1997" em que são referidas as instituições mais citadas, justifica que volte ao tema que é, na realidade extremamente importante.
Porque as citações são um indicador valioso eu referi, no artigo publicado em 1997 a proposta que fiz há anos à JNICT - e, porque ela não foi concretizada, aqui a renovo - da criação de "prémios de produtividade", tanto prémios para quem publica artigos em revistas indexadas nos "Current Contents" como outros, menores, evidentemente, por citações de trabalhos nessas revistas ou em livros texto de âmbito internacional. Seria essa uma forma de dar uma pequena compensação a quem mais produz.
Há pouco mais de meia dúzia de anos, quando o Ministério da Agricultura fez uma série de exposições sobre a actividade dos seus serviços, coube-me organizar o que se referia à Estação Agronómica Nacional, como parte da que foi dedicada a todo o Instituto Nacional de Investigação Agrária. Entre outras demonstrações de bom trabalho realizado, tanto no campo da ciência fundamental como no da imediata aplicação - só a criação da uva "D. Maria", que toda a gente conhece, já deu certamente ao País mais dinheiro do que todo o que foi investido na Estação Agronómica desde o seu início! - não ignorei o caso das citações de trabalhos científicos ali produzidos. Não dispondo de elementos para toda a Estação, mas tendo duas fotografia do que se referia apenas a parte do Departamento de Genética, não deixei de ali as apresentar. Uma fotografia apresentava a capa de 24 revistas (apenas um número de cada, pois nalgumas havia citações em diversos números) e a outra 18 livros texto de projecção internacional, nenhum português.
Essas fotografias tinham sido feitas apenas com bibliografia ali existente, pois eram conhecidos outros casos de citações, em revistas que não existiam na Biblioteca da Estação Agronómica. Mas eram uma boa demonstração do nível do trabalho realizado.
Na introdução às listas das instituições mais citadas em 1995, 1996 e 1997, publicada no "Público" de 7 de Maio de 1998 refere-se que o facto de a análise não ser por investigador, mas dando o número de citações de todos os investigadores de cada instituição, favorece as instituições de maiores dimensões. Mas eu gostava que, tanto para a análise da produção científica das instituições e dos investigadores se entrasse também em linha de conta com os meios - nomeadamente, as verbas - disponíveis, como referi no meu artigo de 1997. Dividindo o total do dinheiro consumido por uma instituição (ou um departamento, ou um investigador) pelo número de citações teríamos uma medida de produtividade, com o que poderíamos chamar o "custo de cada citação".
Também será importante ver como alguns dos jovens cientistas se vão comportar no futuro. Uma boa parte das publicações científicas "portuguesas" actuais são material das teses, principalmente de doutoramento, feitas em laboratórios estrangeiros (em consequência do elevado número de bolsas do Programa Ciência), muitas delas incluindo como co-autores os orientadores desses jovens. Assisti, ao longo de várias décadas, ao panorama triste de ver pessoas que fizeram no estrangeiro o seu doutoramento e que, depois, pouco produziram. Penso que devem ser envidados esforços para que tal não aconteça.
Inversamente, também conheço muitos casos de investigadores com créditos firmados (incluindo numerosas citações em boas revistas e livros texto), que se debatem penosamente com carências de toda a espécie. Esse mal tem, ainda, a agravante de tornar difícil a distinção entre aqueles que produzem pouco por falta de capacidade e aqueles que produzem pouco por carência de meios. (Veja-se o que são muitas das nossas bibliotecas!). Por esse facto, há muitos anos que venho clamando que a prioridade das prioridades da investigação científica em Portugal é prover imediatamente de meios dos trabalho adequados todos os cientistas que já deram um mínimo de provas. Quando isso se fizer, a produção científica portuguesa dará um salto maior do que o dos últimos anos. Portugal tem aquilo que costumo designar de "potência instalada" muito superior à que é aproveitada, por carências que se resolvem imediatamente com algum dinheiro. A demonstração desse facto é o número de projectos válidos que aparecem quando se anuncia um concurso e que somam várias vezes o dinheiro disponível. É assunto que, por mais de uma vez, também tratei no "Público" mas, como já afirmei, tem sido positivamente bradar no deserto.
Não admira que muitos dos preteridos (e sabe-se como...) se fartem de preencher papeis e se acomodem a uma pouco produtiva rotina. Se o "Programa Ciência", só tivesse dado metade das bolsas e construído metade dos novos laboratórios e tivesse usado os milhões restantes a colmatar as carências de que sofrem muitos investigadores válidos, o panorama da ciência em Pßortugal seria muito diferente.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado.