In: "FÉ, CIÊNCIA, CULTURA: BROTÉRIA - 100 AN0S", Hermínio Rico S. J. e José Eduardo Franco (Coordenadores), Gradiva pág. 517-527. 2003

A contribuição da Brotéria para o desenvolvimento da Genética

Miguel Mota
Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética

O fenómeno da Hereditariedade, a transmissão dum Código Genético dum organismo biológico aos seus descendentes, é tão velho como a idade do primeiro ser vivo. O que diferencia um organismo biológico da matéria inanimada é precisamente a existência desse Código e dum mecanismo necessário para que o organismo se reproduza, recebendo o descendente um Código Genético baseado no do seu ou dos seus progenitores.
Durante muitos milhões de anos, no processo de reprodução que mais tarde viria a receber a designação de "assexuada", o organismo descendente recebia uma cópia exacta do Código Genético do seu único progenitor. Por esse facto, a variabilidade dos organismos biológicos era escassa. Limitava-se às mutações que ocorressem no DNA dum organismo, e que, transmitidas à sua descendência, tornavam essa "família" diferente das outras. Mas o fenómeno da mutação, mesmo nos tempos mais primitivos da terra, com maior abundância dos agentes capazes de as produzirem (radiações, faíscas eléctricas, etc.), era certamente raro. Como não havia recombinação entre os Códigos Genéticos de diferentes organismos, a variabilidade era escassa e, consequentemente, a evolução era lenta.
Tudo indica ter sido para aumentar a variabilidade e, portano, acelerar a evolução, que a natureza inventou algo de novo: o sexo. Com ele os Códigos Genéticos de dois organismos com algumas diferenças iriam recombinar-se e dar ao descendente um Código Genético novo, frequentemente diferente do dos progenitores, por ser uma composição com partes de um e do outro.
O fenómeno começou de forma tímida. Duas bactérias - organismos unicelulares - entravam em contacto e uma delas transferia para a outra uma parte do seu DNA. Mas foi evoluíndo e aumentando de complexidade, acompanhando a complexidade dos organismos, que também ia aumentando. Dois passos foram particularmente importantes nesta evolução: a passagem de organismos procarióticos a eucarióticos e a passagem de organismos unicelulares a pluricelulares. O aumento da complexidade do sexo foi enorme, atingindo-se o máximo nos animais superiores, como os mamíferos, incluíndo o homem.
O aumento da variabilidade dos organismos biológicos obtido com a reprodução sexuada muito ajudou à evolução. Se de algo nos podemos admirar é que em tão "pouco" tempo (uns três a quatro milhares de milhões de anos) se tenha passado duma primitiva bactéria até ao homem, com inúmeras "experiências" já desaparecidas, de que o caso mais espectacular é o dos dinosauros. Tenha ou não havido interferência de algo ainda desconhecido, para acelerar a evolução, a verdade é que na parte final deste período aparece o Homo sapiens, considerado o expoente máximo, até agora, da evolução dos seres vivos.
O seu cérebro, mais desenvolvido, permite-lhe ir mais longe, em variadíssimos aspectos, do que qualquer outra espécie, das muitas que precederam a sua criação. E cedo, certamente, se apercebeu que algo havia, muito importante, na transmissão de características duma geração a outra. Cedo constatou a existência do fenómeno da Hereditariedade, pois de gatos apenas nasciam gatos e não outros animais, como coelhos ou galinhas, de cães só nasciam cães, etc. Igualmente, os descendentes da espécie humana eram sempre seres humanos.
Também, certamente, se apercebeu que, dentro da mesma espécie, apareciam nos descendentes características diferentes das dos progenitores. Dum casal de coelhos pardos podiam nascer coelhos brancos e dum casal de pessoas de cabelos e olhos escuros podiam nascer filhos de cabelos louros e olhos azues. Mas o que lhe escapava completamente, mesmo quando a ciência já ia avançada, não só na astronomia e na química, mas também na biologia, era o mecanismo dessa transmissão, apesar de, já desde a antiguidade, terem sido aventadas algumas hipóteses.
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Como se sabe, foi apenas quando o frade Agostinho Gregor Mendel apresentou o resultado das suas experiências com plantas de ervilha - Pisum sativum L. - que a chave do mistério foi oferecida à humanidade. Experiências simples, mas modelarmente delineadas e magistralmente interpretadas, esclareceram o mistério de muitos séculos.
Como também é conhecido, depois da apresentação oral do trabalho, nas sessões de 8 de Fevereiro e 8 de Março de 1865, da Sociedade dos Naturalistas de Brunn (hoje a cidade de Brno) e da sua publicação em 1866 na revista da Sociedade, o mundo científico de então não se apercebeu da extraordinária importância desse trabalho, que se tivesse sido publicado no século XX daria certamente ao seu autor o Prémio Nobel.
Foi só em 1900, quando três cientistas já com nome feito, Hugo de Vries, Carl Correns e Erik von Tschermak, chegando às mesmas conclusões, chamaram a atenção para o trabalho de Mendel, que o mundo em geral tomou conhecimento de ter sido finalmente decifrado o grande mistério. Como se, após a concepção, tivesse de haver uma gestação de 34 anos até aparecer aos olhos do mundo, como o nascimento dum novo ser. E sabemos quando foi batisada a nova ciência que esse trabalho originou. No dia 31 de Julho de 1906, na III Conferência de Hibridação e Melhoramento de Plantas, o Dr. W. Bateson propôs o nome de "Genética" para a ciência que estuda a hereditariedade.
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Dois anos após a redescoberta das leis da hereditariedade, em 1902, nasce em Portugal uma revista científica denominada "Brotéria", nome inspirado no do mais ilustre botânico português de todos os tempos. Embora no seu início não fosse dedicada a essa nova ciência, a "Brotéria" viria a dar-lhe, ao longo dum século de existência e sempre em crescendo, uma enorme contribuição.
Em 1902 ainda não tinha chegado a Portugal notícia desses avanços científicos. Julgo que o primeiro trabalho a referir, no nosso País - com bastante pormenor, diga-se de passagem - o que era essa nova ciência, é o do agrónomo J. V. Gonçalves de Sousa, na "Revista Agronómica" de 1904, revista nascida no ano anterior, com a fundação da Sociedade de Ciências Agronómicas de Portugal, que neste ano de 2003 celebra, também, o seu centenário.
Curiosamente, é nesse mesmo ano que dois cientista, em locais diferentes, W. S. Sutton e T. Boveri, lançam a hipótese - em breve largamente confirmada - de que era nos chromossomas que residiam os "factores" de Mendel, nome que, por proposta de W. Johannsen, foi substituído, em 1909, pelo de "genes". Com a teoria cromossómica da hereditariedade nasce um ramo específico da Genética, a Citogenética, do feliz casamento dos estudos de Citologia (então já relativamente avançados) com os de Hereditariedade.
A recém-nascida "Brotéria" vai ocupar-se em grande escala da ciência então mais activa em Portugal, a Taxonomia de plantas e animais e o seu inventário, para que se passasse a conhecer a flora e a fauna do País. Já havia bastante trabalho nesses campos - era notável a contribuição de Félix de Avelar Brotero, em cujo nome se inspirara o título da revista - e havia que o continuar. E a nova revista vai dar-lhe, nas décadas seguintes, uma contribuição enorme.
Embora a Genética não aparecesse como tal nesses primeiros tempos, são variados os trabalhos que, no entanto, de alguma forma - sabemo-lo hoje - vão contribuir para o seu desenvolvimento. Alguns exemplos ajudarão a demonstrar esta afirmação.
Logo no primeiro número, em 1902, aparece um artigo, que tem continuação nos números seguintes, intitulado "Microscopia vegetal", assinado por C. Zimmermann, onde se descrevem em pormenor muitas técnicas que a Genética usou e algumas que ainda usa. Além da descrição geral do microscópio, cujos princípios continuam, cem anos depois, a ser perfeitamente válidos, entra nas técnicas de fixação, desidratação, infiltração, corte, coloração e montagem do material a observar, que seriam largamente usadas nos estudo dos cromossomas.
C. Zimmermann era Professor do Colégio de S. Fiel - a sede da "Brotéria" - e um dos fundadores da revista. Era membro da Royal Microscopical Society, de Londres, de que o autor destas linhas é "Life Fellow".
Também logo nos primeiros números encontramos diferentes biografias, listas de publicações científicas, com análise crítica de muitas, lista de permutas com revistas nacionais e estrangeiras, etc. Estes elementos serão preciosos quando um dia se fizer um dicionário biográfico dos cientistas portugueses e a lista completa da Bibliografia Científica Portuguesa.
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Não deve ter havido carência de material científico mas, antes, uma certa abundância pois, a partir do seu volume VI, em 1907, a Brotéria" vai subdividir-se numa "Série Botânica", uma "Série Zoológica" e uma "Série de Divulgação Científica". Mas as características das séries científicas mantêm-se as mesmas.
Continuando a assinalar alguns trabalhos de Genética, tem interesse referir o bem elaborado trabalho de T. Martins, no volume VII (1909) da Série Botânica, "La macrosporogénèse dans le Funkia ovata", onde o processo de divisão celular que leva à redução para metade do número de cromossomas é descrito em pormenor. Nessa altura ainda não estava esclarecido se, na divisão reducional, os cromossomas (bivalentes) se dividiam longitudinalmente ou partindo-se pelo meio. Os que defendiam esta última hipótese consideravam que a sinapse se dava topo a topo. Refere, ao tratar do núcleo em repouso, que "la persistance des chromosomes qui semble a quelques auteurs une rèverie (Meves, etc.), semble cependant mieux en harmonie avec la sucession des cinèses".
(Nos começos do século XX, embora já houvesse um conhecimento substancial sobre os cromossomas e a divisão celular, ainda havia que travar uma dura luta para esclarecer muitos pormenores deste fenómeno. Pode dizer-se que, no começo do século XXI, embora já haja uma enormíssima soma de conhecimentos neste campo, ainda continuam por esclarecer muitos passos desse complicadíssimo fenómeno que é a divisão celular).
O estudo de T. Martins divide-se em duas partes: a primeira desde o repouso até ao fim da sinapse e a segunda desde esse ponto até à formação completa dos cromossomas. Neste trabalho encontramos uma terminologia referente ao núcleo e aos cromossomas que foi totalmente abandonada, como "espirema", "estrepsinema", "doliconema", etc. O autor não deixa de assinalar como é mais difícil realizar estes estudos na macrosporogénese, pois o número de células em divisão é muito mais escasso do que na microsporogénese.
Vários dos trabalhos publicados na "Brotéria" eram em língua estrangeira. O francês era, nessa altura, a língua mais internacional pelo que a publicação de artigos nesta língua tornava a revista mais acessível internacionalmente.
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No Volume X (1912) a direcção da "Brotéria" aparece como "Serrano 2, Salamanca, Espanha". A explicação é dada num folheto, "A Brotéria no Exílio", assinado por Cândido Mendes de Azevedo, S.J. (Redactor da "Brotéria") e impresso em Madrid, apresentado como "Suplemento à Brotéria" de Março-Abril de 1913". Nele se descreve o que foi a vida da revista desde o seu início e o que ocorreu depois. Abre com um texto dedicado "Aos Leitores da Brotéria", que começa com as seguintes palavras:
"Dois anos e meio são passados, depois que os redactores da "Brotéria" foram expulsos de Portugal pelo governo provisório da República e espoliados dos seus livros e colecções científicas, pelo único motivo de serem Jesuítas".
Isto ocorreu num período que alguns agora pretendem que era de grande democracia e liberdade. A "Brotéria" continuou, embora com dificuldades, mantendo-se em Espanha, até que mais tarde pôde voltar a Portugal.
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Em 1918 a revista editou um excelente "Índice dos Quinze Primeiros Volumes. 1902-1917".
No Volume XXI (1924) Jaime Pujiula publica "Datos citológicos sobre el meristemo radical de Vicia faba L. y la profase de células ontogénicas" onde afirma que encontrou, nas células do meristema radicular de Vicia faba, "estádios cariocinéticos que se pueden casi sobreponer a los de la profase del período meiótico". Presumo que se trate de profases em que (como algumas vezes tive ocasião de observar) os dois cromatídios já são evidentes, podendo dar uma imagem algo semelhante a um paquíteno.
No volume de 1926, no artigo "Está relacionada la cariocinesis con la secreción interna del vegetal?", fala na possibilidade de haver "endocrinologia vegetal", tema que continua em 1927 com "Contribución al estudio de las hormonas traumáticas". O mesmo autor publica em 1930 "Discussion sobre los rayos mitogenéticos de Gurwitsch" em que declara que se está agitando no momento actual o problema citológico do determinante da mitose ou cariocinese. Além das "hormonas", Gurwitsch lançou a ideia de "raios mitogenéticos", ou seja, causadores da mitose. É uma hipótese de trabalho que não foi confirmada.
Em 1927, integrado nas comemorações do XXV aniversário da revista, é publicado um número especial dedicado à Agricultura. Abre com uma detalhada notícia, assinada pelo Director J. S. Tavares, sobre "Exposições e Congresso Pomológico de Alcobaça (1925 e 1926)". Nela se diz que "A these IV, relatada pelo Sr. Joaquim Vieira Natividade, inscreve como tema: 'Método de caracterização das variedades de pêras portuguesas ou tidas como tais' " que foi a base do trabalho que aquele ilustre agrónomo apresentaria mais tarde no campo da Genética.
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No volume XXIV, de 1930, é publicada uma conferência do Dr. Erwin Baur, Professor da Universidade de Berlim, proferida em Lisboa em 19 de Novembro de 1929, intitulada "Aplicação da Genética ao melhoramento das plantas cultivadas".
Este trabalho, pela sua importância, merece uma análise um tanto pormenorizada, pois ele passa em revista os variados métodos usados no melhoramento de plantas, começando pela simples selecção e continuando pelos mais sofisticados. O que ali se diz, indiscutivelmente interessante, já era bem conhecido dos agrónomos portugueses. Em Portugal havia trabalho em marcha e com resultados, merecendo especial menção a determinação governamental, num "Diário do Governo" de 1900, que mandava fazer híbridos de trigo. O pormenor desse texto mais parece a introdução dum "paper" científico do que uma determinação no jornal oficial. Desse trabalho de hibridação, posto em prática, resultou pelo menos uma variedade nova, o trigo "Belém".
Constantemente Baur enfatiza a necessidade, em melhoramento, de trabalhar com números muito grandes de plantas e refere terem trabalhado, em alguns projectos, com 500.000 (meio milhão!) plantas. É uma regra de ouro, pois nesse tipo de trabalho se joga com probabilidades, geralmente baixas, de encontrar o que se deseja. Fazer melhoramento com pequeno número de plantas é tão aleatório como jogar no totoloto: só por grande sorte se encontra o que se busca.
Tudo o que se disse em relação ao melhoramento de plantas se aplica ao melhoramento de animais. A dificuldade - e o elevado custo - de trabalhar com grandes números de animais superiores é a razão de o número de novas raças de animais ser muito inferior ao das variedades novas de plantas que têm sido produzidas.
A propósito do melhoramento por recombinação genética, tem uma frase que não é totalmente correcta. Afirma que "Nunca se encontram raças novas e boas, senão a partir da segunda geração. Os primeiros híbridos não são melhores que as próprias raças cruzadas." Na realidade, há casos em que se utiliza a primeira geração dum cruzamento - a F1, como hoje dizemos - aproveitando o fenómeno da heterosis. O caso mais espectacular é o do milho híbrido, em que se utiliza na cultura a F1 do cruzamento de duas linhas puras. O fenómeno da heterosis, que ainda hoje apresenta alguns aspectos pouco esclarecidos nos seus fundamentos, foi assinalado pelo próprio Mendel. Ao cruzar plantas de ervilha altas com plantas baixas, a F1 era toda alta, e até um pouco mais alta que o progenitor alto.
Não deixa de chamar a atenção para o fabuloso investimento que representa este sector da investigação agronómica, pois os resultados da criação duma planta que dê um aumento de produção ou de qualidade, quando generalizados à área onde ela vai ser cultivada, originam, para o país, aumentos de valor várias vezes superiores aos custos do trabalho de a obter. É algo que os ministros portugueses da Agricultura e das Finanças, das últimas décadas, deviam aprender, pois a ignorância que têm demonstrado é a causa principal do estado da nossa agricultura e, consequentemente, da economia.
Sugere a possibilidade de o tupinambo substituir a beterraba, o que não se verificou . Uma razão pode talvez ter sido porque não se dedicou ao tupinambo o trabalho de melhoramento com a enorme amplitude do que foi devotado à beterraba.
Muito interessante é o que se refere a "um terceiro método que começa justamente neste momento a ganhar importância prática. Este método é fundado na observação de que, por meio de irritações físicas ou químicas muito fortes, se podem criar novas raças. Se por exemplo expusermos a sementeira duma planta de ensaio à influência dos raios do rádio ou de Roentgen durante determinado tempo, a progénie desta planta será muito mais rica em tipos novos, do que no caso em que esta influência não actue. O que quer dizer que esta irritação muito forte nos dará um material de selecção muito mais rico do que aquele que a natureza espontaneamente nos oferece. Em lugar dos raios de rádio ou de Roentgen, podemos igualmente servir-nos dos raios ultra-violetas ou ainda da influência duma temperatura muito elevada ou muito baixa, ou ainda - e isto é especialmente interessante - de diferentes espécies de irritações químicas. Há certas plantas cultivadas que espontaneamente fornecem poucas variedades novas e que também, por outro lado, se não podem melhorar por meio de cruzamentos com outras espécies. Por esta causa será necessário para o futuro aumentar-lhes o grau de variabilidade, por meio destas irritações artificiais."
O que ali se descreve é o método hoje conhecido pelo nome de "indução artificial de mutações", com o qual foram lançadas na lavoura muitas variedades novas. Baur proferiu a sua conferência em 1929 e os primeiros trabalhos realmente significativos sobre o aumento da taxa de mutações pelos raios X são de Muller, em 1927, em drosófila e de Stadler, em 1928, no milho. É muito duvidoso que a simples exposição a temperaturas altas ou baixas dê algum aumento significativo da taxa de mutações. E em relação às "irritações químicas", só na década de 1940 se descobriu o primeiro agente químico mutagénico, a mostarda azotada.
Ainda sobre este tema, aborda o problema de se conseguir orientar a indução de mutações. É um caso que persiste, um sonho de genetistas e melhoradores, mas quase nada se progrediu nesse sentido.
Tem algum interesse referir a evolução da terminologia. Por exemplo, o que então se designava por "plasma germinal" corresponde ao que hoje chamamos o "genoma".
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Em 1932 a "Brotéria" sofre uma reestruturação. As duas séries, "Botânica" e "Zoológica", juntam-se numa única, de "Ciências Naturais" e passa a ser trimestral, com quatro fascículos por ano. Aparece como "Volume I - 1932", embora entre parêntesis venha (XXVIII). E o seu "Fascículo I" começa com o "In Memoriam" do Padre Joaquim da Silva Tavares, falecido em 2 de Setembro de 1931. O "In Memoriam" desse notável homem de ciência que, além de ter dirigido a revista durante os primeiros trinta anos, a recheou duma enorme quantidade de excelentes trabalhos, é assinado pelo seu sucessor na Direcção, o Padre A. Luisier, outro grande nome da ciência. O Padre J. S. Tavares foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, de que devo ser hoje um dos sócios mais antigos e onde tive a honra de servir como Vice-Presidente.
De 15 a 21 de Dezembro de 1940 realizou-se em Saragoça, Espanha, o XVI Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências. A "Brotéria" de 1941 tem um pormenorizado relato da Secção de Ciências Naturais, destacando o discurso inaugural da Secção de Antropologia, do Prof. A. Mendes Corrêa, da Faculdade de Ciências do Porto, sobre "Perspectivas duma Antropologia citológica". Esses congressos que, infelizmente, já não se realizam, tiveram grande importância. A Sessão de Encerramento deste teve a presença do Ministro da Instrução Pública de Espanha, Sr. Alfonso Peña e do Embaixador de Portugal, Dr. Teotónio Pereira.
As limitações do microscópio óptico, que não permite uma resolução melhor que 0,2 micrómeros, foram a causa de muito e inglório trabalho dos cientistas que tentavam compreender estruturas que se encontravam nesse limite. Foi o que sucedeu com o "condrioma", nome cunhado por Meves em 1907 para um conjunto de mitocôndria, partículas conhecidas desde 1897. A microscopia electrónica veio resolver o problema da estrutura dos mitocôndria e o termo "condrioma" praticamente desapareceu do léxico actual. Posteriormente à descrição da sua estrutura lamelar ou tubular veio o conhecimento de que os mitocôndria contêm uma molécula de DNA e, portanto, também transportam genes. Mas nada disso era conhecido quando A. Gonçalves da Cunha, em 1941, publicou "Quelques données nouvelles pour la théorie de l'évolution du chondriome" e, em 1944, "Le chondriome végétal et son évolution".
António Câmara, um grande genetista português, Director da Estação Agronómica Nacional, deu uma boa contribuição no campo da Genética. Em 1942 publica "A expulsão de cromosomas pela centrifugação"; no ano seguinte, com Sarah de Vasconcellos, "Contribuição para o estudo genético das populações de Drosophila melanogaster em Portugal"; em 1945, também com a mesma co-autora, "Não disjunção provocada artificialmente com anidrido carbónico"; em 1951 "Progressos no estudo do centrómero"; em 1956 "Porque será que a virulência dos germes patogénicos pode variar?" Aliás, o grupo do Departamento de Genética da Estação Agronómica foi o que deu a maior contribuição, à "Brotéria", no âmbito dessa ciência, durante esta fase da revista. Ali se encontram, além de Câmara, os nomes de Duarte de Castro, M. Noronha Wagner, T. Mello Sampayo, A. Gardé, Nydia Malheiros-Gardé e Miguel Mota.
Desde sempre a "Brotéria" incluiu colaboração de cientistas estrangeiros. Mas nas décadas de 1960 e 1970 verifica-se um grande incremento de artigos provenientes de fora do País, evidência da sua projecção no mundo.
Ao longo de toda a vida da revista, são numerosos e variados os artigos de revisão, biografias, história, etc. Dos artigos de revisão, sempre úteis, por oferecerem bons pontos de referência a quem inicia estudos nos respectivos campos, podemos indicar, como exemplos de trabalhos de Genética, os escritos de Miguel Mota, "Os cromosomas do homem. Revisão histórica" (1964); de Luis Archer, "Presure on DNA replication. Review article" (1967); de R. Salema, "Autoradiography with the electron microscope . Principles and techniques" (1970) entre outros.
O estudo dos cromossomas humanos seguiu, durante muitos anos, um penoso caminho, pelas dificuldades inerentes. Essas dificuldades foram responsáveis por durante cerca de trinta anos se ter tomado como bom o número de 2n=48 e só em 1956 se corrigiu para o número correcto de 2n=46. Em 1964, embora os avanços já tivessem sido grandes e fosse possível a elaboração do cariótipo com razoável precisão, ainda subsistiam algumas dificuldades que, poucos anos mais tarde, as técnicas de coloração das "bandas" viriam a resolver.
Em 1975, quando a Sociedade Portuguesa de Genética elegeu o Prof. Aurélio Quintanilha o seu primeiro Sócio Honorário, a "Brotéria" dedica-lhe um dos seus números. Além de artigos sobre o homenageado, este escreve sobre a "História da Genética em Portugal". Não sendo um trabalho exaustivo, até pelo facto do seu autor ter estado um longo período ausente da metrópole, dirigindo o Centro de Investigação Científica do Algodão, em Moçambique, é uma valiosa contribuição e tem muito interesse o escrito de quem era, então, o decano dos genetistas portugueses e grande responsável por alguns cientistas que foram seus discípulos.
Nos anos de 1976, 1977 e 1978 a "Brotéria" é ocupada com o texto de Luis Archer sobre "Genética Molecular". É um trabalho valioso, pois anteriormente só havia em Portugal artigos de divulgação desta matéria, na década de 1960, com os pontos essenciais até à decifração do código genético, mas sem grande profundidade nem com a investigação posteriormente acumulada, num ramo da ciência em activo crescimento.
O último volume da série de "Ciências Naturais", em 1979, inclui o "Programa e Resumos das Comunicações" das "XV Jornadas de Genética Luso-Espanholas, que se realizaram de 26 a 28 de Setembro de 1979, no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Com este volume se encerrou um ciclo da revista em que, como procurei mostrar, embora publicando trabalhos de todas as Ciências Naturais, deu uma valiosa contribuição para o desenvolvimento da Genética.
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Em 1980 a "Série de Ciências Naturais" dá lugar à "Brotéria Genética" e, embora o proprietário continue a ser o mesmo, torna-se o "Órgão da Sociedade Portuguesa de Genética", que tinha sido fundada em 1973. Também começa com nova numeração ("Número 1 / Volume I"), mas com "(LXXXVI)".
A partir dessa data, como se compreende, todos os trabalhos passam a ser do âmbito - aliás muito vasto - da Genética e intensifica-se ainda mais a contribuição da revista para o progresso desta ciência. A Genética era uma das poucas ciências em que Portugal tinha uma posição razoável no âmbito internacional. Divulgada pelo menos a partir de 1904, é nos começos da década de 1930 que começam a aparecer com certa regularidade artigos científicos, produção que já atinge uma certa intensidade nas décadas de 1940 e 1950, com alguns grupos activos, principalmente em Coimbra, Lisboa e Sacavém. Na sua Série de Ciências Naturais, a "Brotéria" publicou, como se referiu, trabalhos de Genética, em paralelo com revistas nacionais de âmbito mais vasto como o "Boletim da Sociedade Broteriana", a "Revista Agronómica", a "Agronomia Lusitana", a "Portugaliae Acta Biologica", a "Revista de Biologia" e outras. Com a "Brotéria Genética" passa a haver uma revista dedicada exclusivamente a esta ciência. No ano de 1980 eram já numeroso os grupos a trabalhar em Genética. Além da Biologia, da Agronomia e da Medicina Veterinária, a Medicina Humana que, pelas razões atrás referidas, tardou a entrar a fundo na Genética, desenvolvia-se vertiginosamente. A técnica de cultura de leucócitos e depois a coloração das bandas nos cromossomas foram os principais factores para esse desenvolvimento, complementado pela Bioquímica.
A colaboração do Director da "Brotéria Genética", Luís Archer (que já, anteriormente, dirigia a Série de Ciências Naturais), é muito grande, algo semelhante ao que se passara no início, em que o Director, J. S. Tavares, contribuiu com numerosos trabalhos. Ali são publicados, (no primeiro número dessa série) os Estatutos da Sociedade Portuguesa de Genética e a revista passa a ser um excelente elo de ligação entre os sócios da Sociedade e também entre muitos genetistas. Também, à semelhança de outras congéneres em diferentes países, apresenta periodicamente a lista dos sócios, com indicação da sua direcção e dos seus campos de trabalho, assim facilitando o contacto entre eles, um bom factor de progresso em qualquer ciência.
Além dos "Artigos de investigação", a oferecer conhecimento novo, a "Brotéria Genética" apresenta uma secção de "Temas em foco" e uma de "Artigos gerais e de revisão", excelentes para manter bem informados, mesmo nos campos em que não investigam, os cientistas. Na parte final de cada número, "Notas e notícias" ajudam a complementar a informação.
As implicações da Genética com outros sectores, não só da ciência, começam a ser particularmente importantes e as secções de "Temas em foco" e de "Artigos gerais e de revisão" tornam-se particularmente úteis como fonte para os que, não sendo genetistas, têm dificuldade em encontrar informação de confiança. Muitos docentes que têm de ensinar Genética entre outras matérias, principalmente nos ensinos básico e secundário, encontram na "Brotéria Genética" uma boa fonte de actualização.
Os problemas éticos resultantes dos avanços da Genética foram ali amplamente debatidos. Tal não é de estranhar sabendo-se que Luís Archer foi durante algum tempo o Presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.
O Nº 3 do volume XIX (XCIV), de 1998, comemora os 25 anos da Sociedade Portuguesa de Genética e abre com um texto de Luis Archer sobre a história da Sociedade, incluindo a lista dos 21 sócios fundadores. Nesse mesmo número Aurélio Quintanilha escreve sobre "Quatro gerações de cientistas na história do Instituto Botânico de Coimbra", uma instituição que também deu grande contribuição para a Genética e onde avultou, ao longo de muitos anos e com enorme produção de ciência, o nome de Abílio Fernandes.
O volume XXIII (XCVIII), de 2002, que encerra o centenário, é ocupado pelos "Índices Gerais da 'Brotéria Genética' (1902-2002)". Além duma excelente ajuda para quem necessite de consultar a revista, folheá-lo dá bem a ideia da enorme contribuição dada à ciência.
No fim desta resenha, quiçá um tanto fastidiosa e não necessariamente completa, a conclusão evidente é a enormíssima contribuição que a "Brotéria" deu, ao longo dum século, para o desenvolvimento dessa fascinante ciência que é a Genética.