Publicado na "Vida Rural" Nº 1582, Ano 41º, 1ª Quinzena de Novembro de 1993:

 

A propósito do "Cachão"

por Miguel Mota*

 

De vez em quando, ao longo dos anos, leio nos jornais algumas notícias sobre o "Cachão", o Complexo Agro-Industrial do Nordeste Transmontano. Nas últimas quase duas décadas as notícias eram sempre trágicas, relatando prejuízos enormes, despedimentos de pessoal, etc.
Leio, agora, que foi formada uma nova "Sociedade" a AIN, Agro-Industrial do Nordeste, S.A., que teria sido formalmente constituída em 17 de Setembro de 1993. Diz-se, nas notícias de jornal, que a nova empresa AIN será dividida em empresas mais pequenas, devido ao seu "gigantismo".
Convém lembrar que não há empresas intrinsecamente grandes demais. E o cachão - ou a nova AIN - está muito longe de poder assim ser considerada, mesmo por muitos que se "assustam" com o tamanho. Basta compará-lo com algumas das grandes empresas que existem pelo mundo para se constatar a sua pequenez.
Uma empresa pode ser "grande demais" para um determinado gestor, cuja capacidade só dá para uma empresa muito mais pequena. Mas um gestor de grande capacidade poderá facilmente gerir - e tornar lucrativa - uma empresa dez vezes maior do que o Cachão. Infelizmente, em Portugal sempre houve empresas comandadas por gestores medíocres, naturalmente insuficientes para tirarem partido da própria dimensão daquilo que geriam. Depois do 25 de Abril e quando o Estado se apropriou de muitas empresas que "ganhavam rios de dinheiro", isso deveria ser motivo para termos que pagar menos impostos. Obviamente, o Estado devia ser capaz de ganhar esse dinheiro, poupando, portanto, aos contribuintes, uma parte dos impostos.
O que sucedeu foi que, na sua maior parte, essas empresas passaram a ser geridas por pessoas incapazes, nomeadas por critérios "políticos" ou de compadrios de qualquer espécie. E, em vez de darem os "rios de dinheiro" que davam antigamente, passaram a dar enormes prejuízos, que
atingem milhares de milhões de contos, o que põe no pobre contribuinte um encargo de muitos contos de reis por ano e por pessoa. Qualquer desses gestores devia ser imediatamente despedido, com justa causa e sem indemnização e com proibição total de ser nomeado para outro cargo, em vez de, como sucede, passar para a chefia de outra empresa onde, naturalmente, vai continuar a sua acção nefasta. Mas parece que os portugueses são incapazes de compreender esta lógica simples.

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Nunca estive grandemente informado sobre o Cachão, mas também nunca deixei, desde as suas origens, de acompanhar um pouco a sua evolução, pois considero-o a mais importante tentativa de a lavoura se libertar dos intermediários parasitas, que vivem lautamente de a sugar, perante uma apatia e uma incapacidade que chegam a fazer desesperar. A lavoura portuguesa só pode vir a ter futuro e a ser uma actividade económica lucrativa e forte se for capaz de realizar e tornar eficientes vários "cachões" pelo país fora. Estará condenada se o não fizer e se não compreender que tem que apoiar intensivamente todos aqueles que se "atrevem" a por em marcha uma obra daquele género, sem medo de "gigantismos" (excepto para "gestores pigmeus"...) nem da oposição feroz que irão certamente encontrar da parte de quem, hoje, vive lautamente à custa da agricultura pobre.
O meu conhecimento do Cachão começou no velho Café Bugiu, hoje um banco, no centro de Oeiras, em frente à igreja matriz.
Foi ali que algumas vezes o meu colega Engº Agrónomo Camilo Mendonça me descreveu o panorama da agricultura do Nordeste, com indicação dos preços miseráveis pagos ao agricultor, da azeitona à cereja, das carnes ao leite, dos figos às nozes, comparando-os com os que o consumidor pagava. E ele queria pôr termo a essa exploração e fazer passar para as mãos da lavoura, como é legítimo e devia ser sempre feito, o trabalho - e os lucros - dessa primeira transformação e comercialização.
Como sempre que a agricultura faz uma tentativa para se libertar dos tentáculos que a sufocam, os interesses afectados - bastantes, poderosos e organizados - reagem imediatamente. Não opondo-se frontalmente, em luta aberta, claro. Minando na sombra, sabotando, torpedeando, por vezes ameaçando veladamente. (Ainda recentemente, num outro caso parecido, essa reacção foi pronta e imediata e ... até é capaz de vencer!).
Embora o Engº Camilo Mendonça se tivesse já então afastado da política, o seu poder e os seus conhecimentos permitiram-lhe levar de vencida muitos obstáculos. Com qualquer outro menos apoiado a obra nunca teria chegado onde chegou. E isto porque os agricultores não compreendem que, alem de terem que tomar iniciativas, têm que apoiar aquelas que aparecem, com acções e entusiasmo. O que se vê é que estão sempre à espera que alguém lhes faça a sua associação e, de fora, observando, consideram que, se tudo der muito bem, "talvez", depois, venham a aderir. Não compreendem que são eles as mais directas vítimas da situação actual e que só podem sair do atoleiro em que vive a agricultura portuguesa se formarem uma frente sólida, unida, em que o associativismo seja a palavra de ordem.
(Já tenho, frequentemente, chamado a atenção para o facto de, enquanto os agricultores falarem de "eles, os da cooperativa", em vez de "nós, os da cooperativa", não têm possibilidades de futuro).
Visitei por duas vezes o Cachão e pude ver, com grande satisfação, como se estava a fazer algo de notável para a lavoura portuguesa. Lembra-me que, da primeira vez, o colega Camilo Mendonça, com o seu entusiasmo, me mostrava os diferentes sectores onde se estava a pôr em execução os projectos de que me falara no café em Oeiras. (Da casa dele, em Santo Amaro, à minha casa, na Nova Oeiras, eram apenas algumas centenas de metros).
Da segunda vez e aproveitando a visita que ia fazer aos meus campos de ensaio de centeios tetraplóides, em Mirandela e Bragança, tive oportunidade de observar todo o conjunto do Cachão. Como dessa vez fui de avião, antes de aterrar em Mirandela (ido do Porto e depois de ter sobrevoado todo o percurso do Douro até à foz do Tua, com um panorama impressionante, dos mais belos do mundo), fui dar umas voltas sobre o Cachão. Pode, assim, ter uma bela visão de todo o complexo, muito mais perfeita e completa do que o que se pode ver do solo.
Tudo isto se passou antes do 25 de Abril e não voltei a visitar o local ou a ter informação directa sobre o que se passava, limitando-me às notícias dos jornais.
Uma obra daquela envergadura, valorizando enormemente os produtos locais, só pode falhar por má gestão ou falta de colaboração dos mais directamente interessados, que são os agricultores. Ou as duas causas juntas...
Esperemos que nenhuma delas aconteça à nova sociedade, a quem sinceramente desejo, para bem dos agricultores, mas para bem de toda a economia portuguesa, os maiores êxitos na luta que por certo vai travar.
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*Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado