Publicado na "Vida Rural" Ano 51, Nº 1691, Julho de 2003:
Um outro cinquentenário com grande importância para a Ciência e para a Agricultura

Miguel Mota*

Neste ano de 2003 celebra-se também o cinquentenário duma descoberta que foi de grande importância para a agricultura.
Em 1953, dois cientistas, James Watson (americano, a trabalhar na Grã Bretanha) e Francis Crick (inglês) fizeram uma descoberta de enorme importância para a agricultura. Tão importante como a descoberta das Leis de Mendel (que são a base do conhecimento do mecanismo da hereditariedade) e como continuação destas, ela beneficiou enormemente a humanidade, principalmente nos campos da agricultura e da saúde. Vários países, entre eles a Grã Bretanha e os Estados Unidos, estão a celebrar em grande estilo esse outro cinquentenário. Talvez interesse dar alguma contribuição sobre o que se passava, então, em Portugal.
Nesse ano de 1953 encontrava-me a trabalhar em Elvas, a chefiar o Laboratório de Citogenética da Estação de Melhoramento de Plantas. O assunto principal do meu trabalho de investigação eram os cromossomas, as maravilhosas estruturas que, em cada célula, são o repositório do Código Genético. Pela duplicação do número de cromossomas nalgumas espécies obtive poliplóides, entre elas os centeios que, pelos seus grãos maiores e mais alta produção julgo que continuam a ser cultivados nas Beiras e em Trás-os-Montes. Essa duplicação do número de cromossomas é também necessária para tornar férteis os híbridos entre trigo e centeio, a forma como obtivemos alguns novos triticales.
Como todas as pessoas que investigavam cromossomas, não podia deixar de me interessar pelos ácidos nucleicos e em particular pelo ácido desoxiribonucleico, o DNA.
(Embora considere importante a defesa da língua portuguesa, julgo mais útil, em relação às principais siglas, usar as que estão internacionalizadas, para evitar a confusão inevitável se cada língua usar a sua. Aos meus amigos que preferem ADN em vez de DNA eu pergunto sempre porque é que usam ATP em vez de TFA, quando falam do TriFosfato de Adenosina?)
Conhecia alguma coisa da química do DNA, pois há muito se sabia que era composto por nucleótidos, moléculas mais simples. Possuia o famoso livrinho de Davidson "The biochemistry of the nucleic acids" (que tinha comprado na Suécia quando ali trabalhei em 1950 e 1951) e tinha, por baixo do vidro da minha secretária, as fórmulas dos nucleótidos.
Quando vi a "Nature" e li o artigo de Watson e Crick tive a sensação da sua enorme importância, aliás, de certo modo, assinalada pelos autores. Mas não consegui compreender a estrutura da molécula pois os meus escassos conhecimentos de bioqímica (ciência practicamente inexistente em Portugal) não chegavam para a visualizar, a partir do ultraesquemático desenho apresentado pelos autores.
Nesse ano fui trabalhar uns meses na Grã Bretanha, como Bolseiro do British Council e aproveitei para visitar algumas instituições. Não fui ao Cavendish (o laboratório onde tinha sido feita a descoberta), mas no King's College, em Londres, pude ver o modelo, construído de forma semelhante à que usaram Watson e Crick. Só então pude compreender bem a estrutura tridimensional da molécula do DNA.
Em 1962, quando me encontrava a trabalhar em Filadélfia, na Divisão de Biologia do Instituto de Investigação do Cancro, foi recebida a notícia da atribuição do Prémio Nobel. E recordo que o Dr. Tom Anderson (um pioneiro da microscopia electrónica, com quem eu trabalhava) comentou que tinha sido de toda a justiça atribuir o Prémio, além de James Watson e Francis Crick, também a Maurice Wilkins, pois sem os resultados dos seus estudos de difracção dos raios X não teria sido possível imaginar o modelo da molécula.
Nessa altura eu não sabia que as melhores fotos de difracção dos raios X tinham sido obtidas por Rosalind Franklin que, infelizmente, falecera em 1958, com 37 anos. Essa informação só a vim a encontrar mais tarde, no livro de Watson, "The Double Helix", que me foi oferecido pelo meu amigo Luis Archer. Tinha lido, antes, várias notícias críticas a esse livro (cujo nome inicial era para ser "Honest Jim"), algumas de pessoas a quem Watson tinha dado o manuscrito a ler e que até o tinham aconselhado a não o publicar, como a do genetista Gunther Stent que, no entanto, nessa crítica dava a mão à palmatória. E pude saber mais do importante papel de Rosalind Franklin, quando o meu filho me trouxe de Inglaterra o livro "Rosalind Franklin & DNA", de Anne Sayre, amiga de Rosalind e que, além de muitos pormenores da vida e do trabalho dessa investigadora, corrige um ou outro ponto menos exacto do livro de Watson.
Com base no conhecimento da estrutura tridimensional da molécula do DNA e por uma brilhante série de trabalhos de investigação, por diferentes autores, conseguiu-se decifrar completamente o Código Genético, ficando-se a saber a que grupos de três bases correspondia cada um dos vinte amino-ácidos.
Com o objectivo de "fazer o ponto" e dar aos colegas doutros sectores informação da situação da Genética, fiz na Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, em 14 de Março de 1964 um colóquio intitulado "Função genética dos ácidos desoxiribonucleico (DNA) e ribonucleico (RNA). Estado acual do problema". Sensivelmente sobre a mesma matéria, fiz no Instituto de Genética Celestino Mutis, em Madrid, em 3 de Novembro de 1964 um colóquio intitulado "A transmissão da informação genética" e em 14 de Abril de 1965, no Hospital do Ultramar, uma conferência sobre "O problema da transferência da informação genética ao nível da Biologia Molecular", repetida na Faculdade de Medicina do Porto em 26 de Abril de 1965.
Quando, em 1964, me solicitaram colaboração para o primeiro número do "Universo", um jornal de divulgação científica, ali publiquei, em Junho desse ano, um artigo intitulado "A base molecular da hereditariedade", onde descrevi os pormenores, desde o modelo de Watson e Crick até ao processo de decifrar o Código Genético.
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* Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética