Publicado na "Revista da APH" (Associação Portuguesa de Horticultura), Nº 80, Janeiro/Fevereiro/Março 2005:

A compostagem nos pequenos quintais

Miguel Mota*

Já em tempos escrevi sobre "A produção agrícola dos pequenos quintais" (1) porque ela constitui um valor que não deve ser ignorado e que o Ministério da Agricultura devia fomentar e ajudar a tirar dela o melhor partido. São alguns centos de milhar de pequenas parcelas, muitas delas no interior das cidades, e o seu cultivo pode, além de oferecer uma pequena receita, ser uma fonte de prazer, através dum exercício saudável e relaxante. Os produtos ali obtidos - geralmente hortaliças, flores e frutos - têm muitas vantagens. Primeiro, o dono sabe exactamente o que está a consumir e, a menos que ele próprio os contamine, tem produtos isentos de compostos nocivos. Outro benefício é o produto ir directamente para o consumidor, sem custos de mão de obra - que é o já citado prazer do dono - de transporte, de embalagem e de comercialização, que tanto oneram o que se compra nos supermercados.
A bem conhecida importância da matéria orgânica para todos os solos agrícolas deve ser determinante para que seja aproveitada sempre que possível. Portugal desperdiça quantidades significativas, que bem podiam ser melhor aproveitadas, aumentando o nível de fertilidade das terras e evitando os actuais custos de eliminar muitos desperdícios. Por esse facto, há toda a vantagem em que, mesmo nesses pequenos quintais, se utilizem em compostagem todos os resíduos degradáveis, do quintal e da casa.
A Câmara Municipal de Oeiras iniciou, há já bastantes anos, a distribuição gratuita, aos possuidores ou outros utilizadores de casas com quintal, de engradados de cerca de 1m3, inicialmente em madeira, actualmente em plástico, acompanhados dumas simples instruções para a fabricação de composto a partir dos resíduos degradáveis da casa e do quintal. Embora o composto possa ser feito simplesmente empilhando os materiais nele utilizados, a utilização do engradado melhora a estética do quintal e dá melhor aproveitamento do espaço.
Ignoro se outras câmaras fazem o mesmo, mas as vantagens são muito significativas, para ambos os lados. Se as vantagens para o utilizador são óbvias, a Câmara Municipal também beneficia desse investimento, pois deixa de ter de transportar muitas toneladas de resíduos que, se não fossem utilizados no composto, iriam sobrecarregar o sistema de recolha do lixo.
O bom aproveitamento dos muitos casos, aparentemente menores, como o da compostagem nos pequenos quintais, pode fazer uma significativa diferença na riqueza de muitas famílias.
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* Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética
MM 31-7-2004 0308