Publicado no "Jornal de Oeiras" de 22-3-2005:

A "CRISE"

Miguel Mota*

O Presidente da República, nalguns discursos, falou na gravíssima crise que o Pais atravessa. Nomes de ilustres economistas portugueses têm batido a mesma tecla e o panorama que pintam é o mais negro.
Mas vemos as nossas estradas atravancadas com milhares e milhares de automóveis; vemos os super e hipermercados repletos de pessoas fazendo compras de produtos que estão muito para alem das necessidades básicas; vendem-se em Portugal, em número muito significativo, automóveis de alto e altíssimo preço e barcos de recreio de diferentes dimensões; vemos quase todo o mundo, incluindo crianças de escola, usando constantemente telemóveis; vemos concertos por grupos estrangeiros que, apesar dos altos preços dos bilhetes, esgotam com facilidade; vemos numerosas discotecas a abarrotar de clientes, muitos deles estudantes que ali gastam em dois ou três dias o dinheiro que não querem pagar de propinas, etc. etc. etc. Isto significa que há um grande sector da população que mostra não ter, realmente, problemas sérios de dinheiro e muitos que levam uma vida de fausto.
Mas sabemos que há uma outra parte da população que se debate com grandes carências e que trava uma luta dura para sobreviver. Isso significa que a "crise", afinal, é só para alguns. Problema um tanto diferente do que seria um país a passar fome.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética