Publicado no "Correio da Manhã" de 22-10-2001

UM COMPONENTE DO DÉFICE EXTERNO

Miguel Mota*

Avelino Crespo analisou, no CM de 15-10-2001 o problema do défice externo português, que é o maior da UE e que, entre 1991-95 e 1998-2000, medido em percentagem do PIB, mais do que duplicou.
Mesmo sem olhar as estatísticas é possível apontar um importante componente desse défice, injustificado e relativamente fácil de anular.
É evidente a quem visite qualquer super ou hipermercado a enorme quantidade de produtos agrícolas importados que, portanto, nada contribuem para o investimento, não sendo reprodutivos.
Se, para alguns produtos agrícolas, como o trigo, se espalhou a ideia (contestável, mas que não dá para analisar aqui) de que não podemos competir com a Europa Central e do Norte, para muitos outros, nomeadamente frutas e hortaliças, não há qualquer desculpa válida. Os muitos milhões de contos gastos nessa importação têm, além do agravamento do défice externo, grandes repercussões na nossa economia, com grandes prejuízos para os agricultores e para a população em geral. O único grupo que beneficia desse injustificado mal são alguns intermediários importadores que assim ganham alguns milhões de contos, que não ganhariam se o País tivesse a agricultura que devia ter. Infelizmente, em face de alguns factos evidentes e pelo que se conclui de vários estudos e comentários, os nossos economistas parece não saberem que a agricultura é uma parte - e muito importante, não só por ser das actividades que criam riqueza de base, como pelas outras actividades que gera, a montante e a jusante - da economia.
A destruição da agricultura portuguesa, que tem estado a ser levada a efeito pelo Ministério da Agricultura nas últimas décadas e por várias cores políticas, agravou enormemente uma situação que já não era brilhante. Da parte dos agricultores e, principalmente, das suas grandes organizações, verifica-se uma apatia e uma indiferença que muito ajudam a essa destruição. E, se todo o País perde, são os agricultores os mais directamente prejudicados.
Porque não se tem feito aquilo que há décadas venho indicando e que não é intrinsecamente difícil, chegamos a 2001 com a triste situação actual. Que desculpa é possível apresentar para que a nossa agricultura não produza, nas quantidades, qualidade e preço competitivo, batatas, cebolas, alhos, cenouras, alfaces, rabanetes, tomates, pimentos, beringelas, peras, maçãs, melões, melancias, uvas, etc. etc., de forma a tornar praticamente impossível virem cá vender esses produtos, às vezes de terras bem distantes. O que considero o cúmulo é encontrar nos nossos mercados rabanetes vindos da Holanda! Como já escrevi algures:

"Que se passa com a agricultura portuguesa, que tanto se queixa - e, nalguns casos, com razão - das dificuldades com certas culturas, para se deixar bater nos mercados nacionais na venda de rabanetes?
Como é possível cultivar rabanetes na Holanda (com os tais salários altos), pagar um transporte (certamente caro) de mais de 2.000 km e vir vendê-los em Portugal? Como é possível que a agricultura portuguesa não abasteça o mercado nacional de rabanetes bons e baratos de tal forma que o País não tenha que pagar os bons salários dos agricultores holandeses e os bons salários e os muitos outros elevados encargos do transporte de mais de 2.000 km, para comer rabanetes?
Que é que está errado na agricultura portuguesa? É a produção que não "descobriu" que há um mercado português para rabanetes? Os holandeses parece que o descobriram... É a organização da comercialização dos produtos agrícolas portugueses?"

Todos esses produtos agrícolas importados, que aqui devíamos produzir melhor e mais barato, não só agravam em muitos milhões de contos o défice externo, como têm reflexos gravosos no PIB, no desemprego, na inflação e, duma maneira geral, no poder de compra dos portugueses.
Como não vislumbro no horizonte qualquer sinal de mudança, a conclusão é que o mal vai continuar e, provavelmente, agravar-se.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado