Publicado no "Jornal de Oeiras" de 4-7-2006

 

Denegrir a ciência portuguesa

Miguel Mota*

A investigação científica não tem, em Portugal, o desenvolvimento que podia e devia ter e essa é uma das razões do atraso do País. Como adiante se refere, as principais razões desse facto, como tenho denunciado em variados escritos e intervenções orais, são principalmente o muito pequeno financiamento (Portugal investe na ciência apenas 0,8% dum PIB muito modesto) e os monstruosos erros de gestão, principalmente ao mais alto nível (do governo), que agravam a escassez de verbas.
No entanto, isso não justifica os ataques que alguns, principalmente por ignorância (a menos que seja por razões mais graves), lhe têm dirigido, fazendo crer que é muito pior do que a realidade. O jornal "O Correio da Linha" publicou no seu número de 27 de Março de 2006 uma entrevista com o Director (estrangeiro) do ITQB (um laboratório português) cujo título era, entre aspas (pois era uma frase do entrevistado), "Um feito notável para um instituto português", pelo facto de pessoal do seu Instituto ter publicado artigos na "Nature" e na "Science".
Porque considerei que aquela frase não correspondia à verdade e até podia ser considerada insultuosa (se o instituto não fosse português já o "feito" não era "notável"...), dando a ideia que Portugal ainda é mais subdesenvolvido que na realidade é, telefonei ao Director do jornal, a chamar a atenção para o facto. Sugeriu-me que escrevesse uma carta, o que fiz em 29-5-2006, pedindo-lhe que me dissesse se não a quisesse publicar integralmente. Como já foram publicados dois números do jornal e o Director não se dignou, sequer, responder aos telefonemas que por três vezes lhe dirigi (embora tenham sempre pedido "os meus contactos"), aqui se transcreve a minha carta para que quem não está dentro destes assuntos não fique com a ideia de que, "para um instituto português", é um "feito notável", publicar artigos científicos em revistas de expansão internacional.

Senhor Director de "O Correio da Linha",
Fiquei abismado ao ler no "Correio da Linha" de 27 de Março de 2006 a entrevista com o Director do ITQB, com o título, entre aspas (pois era uma frase do entrevistado), "Um feito notável para um instituto português", por pessoal do seu Instituto ter publicado artigos na "Nature" e na "Science".
Se é um facto que a ciência em Portugal está longe do que podia e devia ser (por escassez de financiamento e péssima gestão, principalmente aos mais altos níveis), aquela frase - que eu considero insultuosa - só mostra que o Director do ITQB está muito mal informado sobre o que é e o que tem sido a investigação científica em Portugal.
Entre várias outras instituições, a Estação Agronómica Nacional (a primeira grande instituição de investigação científica criada em Portugal e em cujos terrenos se encontra o ITQB), antes dos processo de destruição a que tem estado sujeita pelos governos das últimas décadas (com enormíssimos prejuízos para a economia nacional), tem numerosos "papers" publicados em revistas de alto nível (incluindo as que foram referidas), largamente citados na literatura mundial. Isso pode facilmente ser apreciado no volume editado em 1986, quando a Estação completou 50 anos. Nesse volume, modestamente impresso nas velhas máquinas de off set e quando a Estação já estava numa incrível penúria, tem a lista dos trabalhos publicados até essa data pelos vários Departamentos. Precisamente na "Nature" foi publicado em 1947 um trabalho de dois cientistas do Departamento de Genética que disparou pelo mundo investigação por ele originada, a descoberta, em plantas, de cromossomas sem centrómero localizado, quase vinte anos antes de eu assumir a chefia desse Departamento. (Eu próprio também tenho um "paper" na "Nature". Na "Science" tenho apenas duas cartas sobre problemas da investigação). E noutras instituições, variados cientistas, incluindo muitos amigos meus, têm publicações nas mais reputadas revistas das diferentes especialidades.
Se a gestão do pouco dinheiro que Portugal investe na ciência (0,8% do PIB) não fosse tão má, os resultados seriam bem melhores. Os erros de gestão a alto nível estão bem patentes nalgumas das "avaliações externas" dos últimos tempos, como já relatei ("A saga das avaliações", publicado na "Sintra Regional" de Janeiro de 2005 e no "Jornal de Oeiras" de 20-12-2005). Mas tentar denegrir a investigação científica portuguesa revela, no mínimo, ignorância do que neste País tem sido feito.
Miguel Mota
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética