Investigação Agronómica e Extensão Agrícola, as bases fundamentais do Desenvolvimento Rural

Comunicação apresentada ao Seminário Internacional
Desenvolvimento Rural: Desafio e Utopia

Lisboa 22-23 de Abril de 1999

 

Investigação Agronómica e Extensão Agrícola, as bases fundamentais do Desenvolvimento Rural

Miguel Mota
Estação Agronómica Nacional, 2780 Oeiras

 

O que, fundamentalmente, caracteriza uma zona rural é o facto de a sua actividade principal ser a Agricultura. Por esse facto, só é possível promover o Desenvolvimento Rural se se desenvolver a Agricultura. É ela que irá criar a riqueza de base que tornará possível o desenvolvimento de outras actividades, comerciais (a montante e a jusante), culturais e outras.
Para desenvolver a Agricultura, quaisquer que sejam as condições naturais, é necessário que o Estado tenha bem desenvolvidos dois serviços. O primeiro é uma Investigação Agronómica de alto nível, cuja função última é constantemente descobrir como agricultar melhor, no seu sentido mais lato, desde o planeamento à comercialização.
O segundo é um muito eficiente serviço de Extensão Agrícola (nome por que é hoje conhecido no mundo o fomento ou aconselhamento agrícola), cujo objectivo é levar até aos agricultores os conhecimentos já existentes e os que vão sendo criados pela Investigação Agronómica.
Há muitos anos que venho defendendo estes princípios que, aliás, considero elementares. A prova desta afirmação está numa lista (certamente incompleta) de uns 60 artigos que publiquei em diferentes jornais e revistas, ao longo de 40 anos. (Ver "Referências Bibliográficas").
A razão de tanta insistência é o facto de os responsáveis pelo sector, ao longo dos anos, não terem sido capazes de pôr em prática um sistema, apesar dele não ser intrinsecamente difícil.
O que não tem sido feito e, até, o que tem sido destruído, ao longo de algumas décadas, no Ministério da Agricultura, é a causa do estado lastimável da nossa Agricultura.
Por esse facto - e como há anos venho propondo, embora sem qualquer êxito - impõe-se iniciar urgentemente um Programa Intensivo de Investigação e de Extensão no Ministério da Agricultura.
Para esse Programa Intensivo existem os elementos básicos fundamentais, o que permite entrar imediatamente em acção e colher bons resultados a muito curto prazo. Acresce que os quantitativos necessários não só não são muito elevados como constituem um fabuloso investimento, que rende juros astronómicos, pelo que serão muito mais do que simples "despesas".

Os dez minutos de que disponho não permitem entrar em mais pormenores, que terei muito prazer em desenvolver sempre que surja oportunidade.
Parece-me útil utilizar o tempo de que ainda disponho para mostrar que os "custos" de tais serviços são, na realidade, fabulosos investimentos, que rendem juros elevadíssimos. Como já tenho escrito e vou demonstrar, são de tal ordem que o próprio orçamento do Estado lucra enormemente.
*
Assim como acontece com a investigação médica, de que só uma pequena parte é directamente aplicável ao doente, também na investigação agronómica só uma pequena parcela dos resultados é directamente utilizável pelo agricultor. Estudos de Taxonomia, Genética, Fisiologia ou Estatística não originam, directamente, maior ou melhor produção. Mas sem eles todo o restante edifício sofre e não é possível ter bons resultados.
São muito escassos os trabalhos de Investigação e de Extensão de que temos elementos quantificados ou mesmo estimativas credíveis. No entanto, utilizando alguns desses casos, mostrarei o que se pode obter.
Um dos raros exemplos em que se obteve informação sobre o quantitativo recolhido a mais como resultado da investigação agronómica ocorreu há já bastantes anos. A misteriosa doença das videiras do Douro conhecida pelo nome de "maromba" causava graves prejuízos. O problema foi estudado na Estação Agronómica Nacional, então ainda em Sacavém e foi encontrada a solução. A maromba era resultado duma carência de boro, um dos oligoelementos necessários às plantas. Indicada a terapêutica, a maromba desaparecia e as vinhas acusavam um importante aumento de produção.
Como as vinhas do Douro se encontram perfeitamente cadastradas e as suas produções controladas, foi possível determinar que a solução do problema deu à lavoura do Douro e, portanto, ao País, nessa altura, um acréscimo de produção de 28.000 a 30.000 contos. Devo dizer que, nessa altura, o orçamento total da Estação Agronómica Nacional era da ordem dos 15.000 contos. Isto é, só a solução desse problema dava ao País, anualmente, duas vezes o dinheiro gasto com todo o organismo! E, claro, esses aumentos de produção continuaram a verificar-se anualmente e devem ser hoje superiores a um milhão de contos.
Num artigo que publiquei em 1969 e baseado nas estatísticas das quantidades semeadas com semente seleccionada das variedades de trigo produzidas pela Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, estimava em mais de 25.000 contos por ano o que o País colhia a mais com esses trigos ali fabricados. Isso era, ao tempo, mais de cinco vezes o orçamento anual da Estação de Melhoramento de Plantas.
Reportando-me aos tempos modernos e sem que disponha de números (apesar de ter tentado obtê-los) quero referir um caso que é do conhecimento geral.
Certamente todos conhecem a uva 'D. Maria', uma excelente variedade de uva de mesa, muito apreciada e que encontramos em abundância em todos os mercados. O que, provavelmente, poucos sabem é que essa variedade foi criada na Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, pelo Eng.º Agrónomo José Leão Ferreira de Almeida, infelizmente já falecido. Ela foi seleccionada na descendência do cruzamento, por ele efectuado, entre duas outras variedades.
Há alguns anos tentei saber qual a área cultivada em Portugal com a uva 'D. Maria' e qual seria o valor do acréscimo de produção por hectare em relação às variedades que substituiu. Não foi possível obter esses dados mas, da enorme quantidade de uva 'D. Maria' que vemos nos mercados é óbvio que só ela paga, todos os anos, a despesa da Estação Agronómica Nacional.
*
Para a Extensão, o único trabalho bem documentado e quantificado que conheço é a chamada "Experiência Agrícola de Sever do Vouga", levada a cabo pela Shell entre os anos de 1958 e 1968.
Durante esse período a Shell colocou no concelho de Sever do Vouga o Eng.º Agrónomo Reinaldo Jorge Vital Rodrigues - infelizmente também já falecido - com o objectivo de aí realizar Extensão Agrícola - embora não usasse essa palavra - aconselhando os agricultores de forma a que eles pudessem fazer melhor agricultura.
Nos primorosos relatórios que todos os anos publicava podemos ver o que foi esse trabalho e em todos eles, no fim, apresentava o gráfico das despesas que a Shell efectuava com a "Experiência" e dos aumentos de rendimento líquido obtido pêlos agricultores em consequência do seu trabalho de Extensão. No Quadro I encontramos esses valores que, em representação gráfica podemos ver na Fig. 1.
Como se vê, enquanto as despesas aumentam muito pouco, os aumentos de rendimento líquido aumentam muito mais.
Num artigo que publiquei em 1969, apresentei os reflexos, para o orçamento do Estado, dos resultados desse trabalho. Considerei nessa altura que o Estado cobrava, em impostos, cerca de 20% do PIB.(Hoje é muito mais, creio que perto dos 40%). Assim, qualquer despesa feita pelo Estado que cause no PIB um aumento cinco vezes esse valor será totalmente reembolsado no fim do ano! Se a despesa causar no PIB um aumento de dez vezes o seu valor, o reembolso vem com 100% de juros!
No Quadro II apresento a relação entre os aumentos de rendimento líquido dos agricultores e as despesas feitas pela Shell com a "Experiência". Como vemos, a partir de 1964 já essa relação era superior a cinco e em 1968 era de cerca de dez.
Os exemplos que dei mostram que, se o Estado fizer os trabalhos que descrevi e que considero fundamentais - isto aplica-se igualmente à Investigação - o orçamento só está a emprestar dinheiro e a juros fabulosos. Porque não o temos feito capazmente, temos uma agricultura em mau estado e temos um País pobrezinho.
É isto que é preciso fazer se quisermos ter um bom Desenvolvimento Rural.

Referências Bibliográficas

Mota, Miguel - 1960 - O vinho do Porto - esse ignorado em Portugal
Jornal do Comércio de 20 de Fevereiro de 1960

------------ 1960 - A absorção do excesso de mão-de-obra agrícola
Jornal do Comércio de 12 de Abril de 1960

------------ 1960 - A investigação científica na absorção do excesso de mão-de-obra agrícola
Jornal do Comércio de 26 de Abril de 1960

------------ 1961 - O futuro da rolha
Jornal do Comércio de 1 de Fevereiro de 1961

------------ 1962 - Agricultura eficiente
Jornal do Comércio de 6 de Novembro de 1962

------------ 1963 - Progresso da agricultura?
Jornal do Comércio de 5 de Setembro de 1963

------------ 1964 - Velhos problemas da agricultura portuguesa
Jornal do Comércio de 21 de Fevereiro de 1964

------------ 1964 - Como investir na agricultura
Jornal do Comércio de 25/26 de Julho de 1964

------------ 1964 - As bases duma agricultura eficiente
Jornal do Comércio de 14 de Setembro de 1964

------------ 1964 - Como se cura uma agricultura que produz pouco, mau e caro (1)
Jornal do Comércio de 11 de Dezembro de 1964

------------ 1964 - Como se cura uma agricultura que produz pouco, mau e caro (2)
Jornal do Comércio de 19/20 de Dezembro de 1964

------------ 1965 - A posição da agricultura no orçamento dos Estados Unidos
Jornal do Comércio de 18 de Fevereiro de 1965

------------ 1966 - O problema da fome
Jornal do Comércio de 4 de Outubro de 1966

------------ 1967 - La Structure du Complexe Recherche-Vulgarisation dans l'Agriculture d'un Pays
Mediterranea. Revue des Problèmes Agronomiques Méditerranéens, 14:2-8. 1967

------------ 1967 - Como se cura uma agricultura que produz pouco, mau e caro (3)
O caso do México
Jornal do Comércio de 5 de Abril de 1967

------------ 1967 - Uma terceira forma de combate às pragas e doenças das plantas
Jornal do Comércio de 26 de Abril de 1967

------------ 1967 - A agricultura e a investigação científica
Jornal do Comércio de 15 de Maio de 1967

------------ 1967 - A melhor agricultura da Europa
Jornal do Comércio de 8 de Agosto de 1967

------------ 1968 - A defesa contra os factores adversos na agricultura
Jornal do Comércio de 26 de Abril de 1968

------------ 1968 - O que se pode fazer para combater as ferrugens dos cereais
Jornal do Comércio de 18 de Agosto de 1968

------------ 1968 - Revolução na agricultura (1)
Jornal do Comércio de 10 de Setembro de 1968

------------ 1968 - Equacionando os problemas da agricultura
Jornal do Comércio de 14/15 de Setembro de 1968

------------ 1968 - Revolução na agricultura (2)
Jornal do Comércio de 19 de Novembro de 1968

------------ 1968 - O que são triticales
Jornal do Comércio de 24 de Dezembro de 1968

------------ 1969 - Desaparece um agrónomo ilustre!
Jornal do Comércio de 17 de Abril de 1969

------------ 1969 - A rentabilidade dos serviços de agricultura. I - Introdução
Jornal do Comércio de 7 de Julho de 1969

------------ 1969 - A rentabilidade dos serviços de agricultura. II - A Investigação
Jornal do Comércio de 10 de Julho de 1969

------------ 1969 - A rentabilidade dos serviços de agricultura. III -A Extensão
Jornal do Comércio de 16 de Julho de 1969

------------ 1969 - A rentabilidade dos serviços de agricultura. IV - Conclusão
Jornal do Comércio de 21 de Julho de 1969

------------ 1979 - Relações entre a Investigação e a Extensão
I Jornadas de Extensão Rural, Oeiras, 7 a 11 de Fevereiro de 1977. Lisboa, 1979, paginas 11 a 19

------------ 1979 - Comentários às I Jornadas de Extensão Rural
I Jornadas de Extensão Rural, Oeiras, 7 a 11 de Fevereiro de 1977. Lisboa, 1979, paginas 139 a 156

------------ 1981 - Informação na agricultura: da Investigação, através da Estensão, até ao Agricultor
Vida Rural, Julho de 1981

------------ 1981 - A Agricultura em Portugal. Carta abetrta a Rogério Martins
Expresso de 22 de Agosto de 1981

------------ 1981 - O agricultor português
Gazeta das Aldeias nº 2866, Setembro de 1981

------------ 1982 - Como produzir muito mais
Gazeta das Aldeias nº 2870, Janeiro de 1982

------------ 1984 - Da agricultura que temos para a agricultura que podemos ter
Jornal de Sintra, nº 2579, 2/3/1984

------------ 1986 - Plantas resistentes aos herbicidas
Vida Rural, nº 228, 1ª quinzena de Abril de 1986

------------ 1989 - A Política Agrícola Comum da CEE e a Investigação Agronómica
Boletim Mensal da Região Sul da Ordem dos Engenheiros, nº 75, Julho/Agosto de 1989

------------ 1990 - A agricultura portuguesa e a adesão à CEE
DIAgrícola nº 59, de 1 de Maio de 1990

------------ 1990 - "O nosso grande adversário é o atraso"
DIAgrícola de 5 de Junho de 1990

------------ 1990 - Como se cura uma agricultura que produz pouco, mau e caro
DIAgrícola de 20 de Novembro de 1990

------------ 1991 Agricultura. Investigar, o quê e para quem.
Gazeta das Aldeias. Série de 6 artigos, publicados nos números 2923, 2024, 2925, 2926, 2927/8 e 2972, 1986 - 1990

------------ 1992 - A melhor propaganda eleitoral
Correio da Manhã de 17 de Abril de 1992

------------ 1992 - Agricultura de Sintra
Jornal de Sintra 59(2970), 1992

------------ 1992 - Investigação e Extensão, os maiores "subsídios" que podem ser dados a qualquer agricultura.
Comunicação à "IV Semana de Extensão Rural", Évora, 27 a 30 de Abril de 1992
Gazeta das Aldeias 97(2996), Julho de 1992

------------ 1992 - Experimentar e divulgar
Gazeta das Aldeias Outubro de 1992

------------ 1992 - Agricultura europeia e americana. Duas atitudes
O Diabo de 15 de Dezembro de 1992

------------ 1993 - A agricultura e o Estado
O Diabo de 6 de Abril de 1993

------------ 1993 - Como eu entendo que deve ser a estrutura do Ministério da Agricultura
Gazeta das Aldeias. Maio de 1993

 

------------ 1993 - A 'prova' agrícola que nada prova
Expresso de 17 de Julho de 1993

------------ 1994 - O agricultor português e a CE
Vida Rural, Janeiro-Fevereiro de 1994

------------ 1994 - Ambiente e montado. A mensagem que faltou
Correio da Manhã de 15 de Abril de 1994

------------ 1995 - A competição na agricultura
Gazeta das Aldeias 99 (3035): 28-30. Outubro de 1995

------------ 1996 - Produtividade e Genética aspectos da luta contra a fome
Brotéria Genética, XVII (XCII):15-31. 1966

------------ 1996 - Duas actividades indispensáveis ao progresso da agricultura: Investigação e Extensão
Vida Rural 44(1620):16-18. Dezembro de 1996

------------ 1997 - A articulação entre a Investigação e a Extensão na agricultura
Comunicação ao I Simpósio Nacional sobre a Articulação entre a Investigação e a Extensão na Agricultura, Oeiras, 24 de Janeiro de 1997
Vida Rural Março de 1997

------------ 1997 - A agricultura, antes e agora
Linhas de Elvas de 27 de Junho de 1997

------------ 1998 - As publicações não periódicas (livros e folhetos) como veículos de informação para o agricultor
Comunicação ao II Simpósio Nacional sobre a Articulação entre a Investigação e a Extensão na Agricultura, Évora, 23 de Janeiro de 1998
Vida Rural, Junho de 1998

------------ 1998 - O presente e o futuro da agricultura portuguesa.
Vida Rural, Junho de 1998

------------ 1998 - A agricultura na União Europeia. A PAC que tem sido e a PAC que pode ser.
Vida Rural 45(1628):12-15. Agosto de 1998


Faltam os dois Quadros e as duas Figuras, que complementam o texto. Podem ser vistos na "Vida Rural" de Julho