Publicado na "Gazeta das Aldeias" Nº 3097, Ano 108, Abril-Junho de 2003:

Deserto agrícola?

Miguel Mota*

Em 31 de Dezembro de 1995 o "Diário de Notícias" publicou um suplemento sobre as 200 maiores empresas exportadoras portuguesas onde se concluía que "a Agricultura tem pouco peso na exportação"
Essa "conclusão" levou-me a publicar em 1986 um artigo (1) em que chamava a atenção para o facto de, embora a Agricultura não exportasse muito "directamente" (pelo menos através de grandes empresas), os seus produtos estavam na base de grande número de empresas industriais.
Em 30 de Agosto de 1986 o "Semanário" publicou um suplemento com "As maiores empresas industriais". Essas empresas eram distribuídas por 15 sectores, os sete primeiros sendo:
- Alimentação
- Bebidas e tabaco
- Têxteis
- Couro, pele e calçado
- Madeira e mobiliário
- Cortiça
- Pasta de papel
Isso levou-me a publicar um outro artigo (2) em que chamava a atenção para o facto de essas empresas industriais dependerem, em grande medida, da Agricultura. Concluí esse artigo com o seguinte parágrafo:

"E como a Agricultura tem sido a mais espezinhada, é tempo de perceber qual é a sua real importância e, além do esforço que deve fazer para se tornar uma actividade mais eficiente e produtiva (algo que a Indústria e o Comércio também necessitam fazer), tem que deixar de aceitar tão resignadamente o lugar secundário que outros lhe impõem e contra o que não reage de forma satisfatória."

Em 25-3-2000 o "Expresso" "decretou", perante a seca desse período, "O fim da nossa agricultura".
Como a carta que enviei ao "Expresso", para repor algum senso perante declarações tão absurdas, não foi publicada pelo jornal, transcrevi-a num artigo (3) em que, além duma série de esclarecimentos, dizia:

"Mas podemos já ter a certeza de que não vai suceder a inconcebível profecia do "Expresso" e que, no próximo ano, continuará a existir agricultura em Portugal. Se os leitores do "Expresso" se lembrarem do que ali foi escrito, perderão, certamente, uma boa parte da confiança que esse jornal justamente mereceu em tempos antigos. É fácil verificar em que estado ficará essa credibilidade quando no ano agrícola 2000-2001 verificarem que, afinal, com grande tristeza de alguns, vai continuar a existir agricultura em Portugal. Embora alguns possam "lamentar" esse facto, a economia do País vai poder continuar a contar com essa muito importante actividade."

Mais de um ano depois, no "Expresso" de 1-9-2001, a mesma pessoa que tinha "decretado" a extinção da agricultura em Portugal, dá o dito por não dito e declara que a "Agricultura está viva mas…". Isto é, confessava o seu erro do escrito anterior e, à laia de desculpa, acrescentava-lhe um "mas". Como a carta que enviei ao "Expresso" também não foi publicada, transcrevi-a num outro artigo (4) em que chamei a atenção para o caso.
Eu sei que há um certo grupo de empresários a quem muito convém que não haja em Portugal agricultura ou, não sendo possível extingui-la completamente, que ela seja o pior possível e não consiga abastecer o País daquilo que ele necessita. São os importadores desses produtos, cuja actividade, muito rendosa, ficaria reduzida se a agricultura portuguesa, como podia e devia, abastecesse o País com muitos desses produtos estrangeiros que vemos nos supermercados e que aqui podíamos e devíamos produzir melhor e mais barato. Deveríamos, até, exportar muito mais produtos agrícolas do que o que exportamos.
Mas o que se pode esperar dum País que não sabe sequer quais são os componentes da economia e ao ministro do Comércio e Indústria chama - como tenho denunciado repetidamente - ministro da Economia! (Poderiam chamar-lhe "ministro de Parte da Economia...").
Não sei se é apenas por ignorância que isto sucede ou se há, por detrás, lóbis eficientes a fazerem força nesse sentido - e a conseguirem - que se destrua esse importante sector da economia portuguesa que é a agricultura. Com essa "excelente" acção, em que têm sido bem "ajudados" pelos ministros da Agricultura que temos tido, de várias cores políticas, se não conseguiram - com grande pena, certamente - que a agricultura desaparecesse de todo, lá vão conseguindo mantê-la em estado de subdesenvolvimento. Para ver o que se pode fazer basta ir a Espanha. E todo o País paga muito caro este tipo de actuação, pela enorme diminuição no PIB, resultante da fraca contribuição do PAB, o Produto Agrícola Bruto.
Sofismam, constantemente, a "pequenês" do sector agrícola e não sabem - ou fingem não saber, o que ainda é pior - como uma boa agricultura beneficia outros sectores, a montante e a jusante.
*
O "Público" de 11-11-2002 publicou um suplemento sobre "As maiores 500 empresas não financeira de Portugal". E a miopia dos outros casos ali aparece da mesma forma sofismada.
Avaliar o potencial dum país só pelo número das suas "maiores empresas" é um erro tão elementar que qualquer estudante de economia que o cometesse já não devia ter direito ao diploma. Mas é isso que se verifica nesse suplemento, mostrando uma inadmissível ignorância, comparável àquela do "Expresso" que me fez escrever:

A razão dos erros de Vitor S. Andrade reside no facto de tirar conclusões gerais do que observa através da janela muito estreitinha das ofertas de emprego que aparecem no caderno do "Expresso" devotado a esse tema. Mas se procurar documentar-se melhor, terá de ter cuidado em não o fazer junto daqueles que são os mais directos responsáveis pelo estado da nossa agricultura".

No suplemento do "Público" o erro é evidente no título "Deserto agrícola e mineiro", de que vale a pena transcrever o primeiro parágrafo:

"O facto de só existirem duas empresas agro-pecuárias entre as 500 maiores do PÚBLICO é revelador do peso e da importância do sector na economia portuguesa. A agricultura representa actualmente 1,7 por cento do produto interno bruto (PIB). Nas 500 o seu peso ainda é menor, não ultrapassando 0,1 por cento das vendas totais".

Não sei quem são os autores daquela "brilhante" peça, pois vem assinada apenas com as iniciais "R.S./C.T.". O que esses autores (ou autoras) mostram não saber é que, pelas suas características, a agricultura desenvolve-se principalmente em pequenas e médias empresas, pelo que o facto "de só existirem duas empresas agro-pecuárias entre as 500 maiores do PÚBLICO" não é, ao contrário do que ali se diz, "revelador" do peso e da importância do sector na economia portuguesa.
Aliás, no 2º período do mesmo parágrafo, têm os autores/as uma excelente indicação de que as tais duas únicas empresas agrícolas são apenas uma parcela pequena do total. Dizem que a agricultura representa 1,7 por cento do PIB e que as duas empresas, no total das 500 não ultrapassam "0.1 por cento das vendas totais". Isto devia ser suficiente para, mesmo sem olhar para os campos, os autores/as saberem que há muito mais do que um "deserto agrícola".
Mas esses mesmos autores/as têm, no mesmo trabalho, mais elementos para se ver que, mesmo no mau estado em que está (e não devia estar), a agricultura tem um peso muito significativo na nossa economia.
No quadro das 500 maiores empresas, listadas por ordem decrescente, 6, dentro das primeiras 18, são de "Comércio de alimentação, bebidas e tabaco"! Embora alguns desses produtos sejam importados (e muitos não deviam necessitar de o ser), é óbvio que é a agricultura a grande fornecedora dessas empresas.
A contribuição da agricultura é grande, não apenas por si só. Além do seu valor económico, ela tem enorme valor estratégico pois é bem sabido que os povos são muito mais facilmente vencidos pela fome do que pelos canhões. Além disso ela é a razão de ser de muita actividade, a montante e a jusante, com enormes reflexos no PIB, na inflação, no défice orçamental, no emprego e nas balanças comerciais e de pagamentos (5).
Como os casos como este se repetem com certa frequência, considero importante esclarecer a opinião pública. As pessoas que estão longe destes problemas, naturalmente acreditam naquilo que lhes é repetidamente apresentado e não têm forma de verificar que está errado. Essa a razão destas linhas.

(1) Mota, Miguel - "A posição da Agricultura nas exportações portuguesas", Vida Rural nº 225, de Fevereiro de 1986
(2) Mota, Miguel - "Como a indústria depende da agricultura", Vida Rural nº 240, de Outubro de 1986
(3) Mota, Miguel - "Continuam erradíssimas as ideias sobre a agricultura", Linhas de Elvas de 2-6-2000:
(4) Mota, Miguel - "Continuam muito erradas as ideias sobre a Agricultura", Linhas de Elvas de 26-10-2001:
(5) Mota, Miguel - "PIB, défice, inflação e produtividade", Diário Económico de 24-1-2000
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado