Publicado no "Linhas de Elvas" de 20 de Janeiro de 2005
E na "Sintra Regional" nº 9, Março 2005 :

Continua a destruição da agricultura portuguesa

Miguel Mota*

Já por mais de uma vez (também no LE) denunciei esse espantoso erro que é a destruição de toda a investigação científica que não seja das universidades. O processo iniciou-se há já vários anos, quando algumas pessoas das universidades "descobriram" que havia, nas suas especialidades, pessoas que lhes eram cientificamente superiores e com maior projecção no mundo da ciência. Gerou-se, então, na sombra, sub-repticiamente e com governos de diferentes cores politicas, um programa de destruição de toda a investigação científica - alguma de grande prestígio - que não fosse das universidades.
O que esse escandaloso "trabalho" já custou ao País, especialmente na economia e na cultura, é um valor que se pode contar por milhares de milhões de contos. Um dos sectores mais afectados (mas não o único) foi o da investigação agronómica. Nesses actos criminosos está a origem do estado lastimável da nossa agricultura, evidente nas astronómicas importações de produtos agrícolas que aqui devíamos produzir melhor e mais baratos. Basta ir a qualquer supermercado para ver essa vergonhosa situação, com enormes repercussões no PIB, na inflação, no desemprego e nas balanças comercial e de pagamentos. Os nossos economistas - que julgam que "economia" é só o comércio e a indústria, como nos dizem da composição dos governos desde 1995 - ou não se apercebem de tão elementar facto ou preferem "proteger" os importadores de produtos agrícolas, com enormes custos para os portugueses.
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Em Alcobaça esteve localizado o Departamento de Pomologia da Estação Agronómica Nacional. O que ele deu ao País, em produção de ciência e no desenvolvimento da nossa melhor região fruteira, não está calculado, mas foi imenso. E mais e melhor teria feito se mais e melhores meios tivessem sido postos à sua disposição. Só foram dados bons meios de trabalho a esse Departamento quando o ilustre engenheiro agrónomo que o dirigia se aproximava da reforma e, como ele me disse, "porque passei a entender-me directamente com o ministro". (Esse ministro foi um dos raros, entre os que ocuparam esse posto, que fez algo para desenvolver a agricultura e não para a destruir).
Tal como sucedeu a outros sectores da investigação agronómica, esse foi sendo paulatinamente degradado, para se encontrar "pretexto" para acabar com ele e... entregá-lo a outro ministério! E é isto que é a última novidade "conhecida" (talvez haja outras na forja...) que se está a preparar!
A nível dos políticos, quem mais tem tido a perder com este criminoso processo são os Primeiros Ministros. Minando a economia pela base, a principal razão das mudanças de governo das últimas décadas é o estado lastimável da nossa economia e os desejos dos portugueses daquilo a que, legitimamente, consideram ter direito. Não tivesse o PSD feito o que fez nesse campo durante os dez anos em que foi governo (com destruições, na agricultura, bem piores que as da famigerada Reforma Agrária) e, em vez do PS, teria em 1995 ganho as eleições com uma bem reforçada maioria absoluta. Se o PS não tivesse continuado a mesma acção destrutiva, talvez ainda estivesse a governar. Se a coligação PSD-CDS não continuasse exactamente o mesmo criminoso processo, não teria havido possibilidade de pretexto para a dissolução da Assembleia da República.
Aqui fica o aviso para quem assumir o cargo de Primeiro Ministro em 20 de Fevereiro deste ano de 2005. Se não quiser "suicidar-se" - o que tem sido feito, através, principalmente, dos ministros da Agricultura, tem sido um verdadeiro "hara-kiri" - inverta rápida e fortemente este processo destrutivo e dê aos portugueses a economia que desejam e a que têm direito. Como tenho mostrado repetidas vezes, tal ainda é possível. Para isso comece por ter um Ministro da Agricultura que não se demita das suas funções e rapidamente faça mudar o triste panorama actual. Isso é possível porque o que resta, o que ainda não conseguiram destruir, chega como ponto de partida para uma boa recuperação.
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*Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética.