Publicado no Diário de Notícias de 1 de Novembro de 2001:

Distinções entre esquerda e direita

Miguel Mota

Bernardino Nascimento, em carta ao "Meu caro DN" (23-10-01), acha estranho que Vasco Pulido Valente se refira a "esquerda" e "direita" e diz: "Julgava eu que a dicotomia direita e esquerda estava ultrapassada", acrescentando que "outros valores distinguem os homens: honestidade, humildade e tolerância".
É uma confusão muito generalizada e que os nossos políticos não parece quererem esclarecer, a que se estabelece entre aqueles dois grupos de características, que não têm nada a ver um com o outro.
A designação de "direita" e "esquerda" nasceu em 1789, na Assembleia Nacional francesa (designação que substituiu a de Estados Gerais) em que à direita do presidente se sentavam os nobres e defensores dos privilégios (entre os quais o rei ter direito de veto sobre as leis feita pela Assembleia Nacional) e à esquerda do presidente o povo (o 3º estado), a lutar contra os privilégios da nobreza. Convém lembrar que o lema da Revolução Francesa era "Liberdade, Igualdade, Fraternidade".
Os princípios gerais dessa diferença entre direita e esquerda mantêm-se. Pode até dizer-se que, com a maior complexidade da vida actual, esses conceitos foram alargados.
Não há hoje, em nenhum país, nem direita pura nem esquerda pura. Pode é variar a proporção entre as características duma e de outra.
Assim, podem considerar-se características de esquerda: nacionalizações; primado do estado (e da comunidade) sobre o indivíduo; maior valorização do trabalho do que o capital; leque salarial muito apertado (no limite da esquerda pura os salários seriam todos iguais); saúde, educação e protecção na velhice como encargos do estado; impostos altamente progressivos, em que quem mais tem paga proporcionalmente muito mais; etc. etc. etc.
Inversamente, são características de direita: privatizações; primado do indivíduo sobre o estado (ou a comunidade); maior valorização do capital do que o trabalho; grande leque salarial, indo de salários muito baixos até salários altíssimos; saúde, educação e protecção na velhice como negócios privados; impostos pouco progressivos ou, mesmo, todos a pagarem a mesma percentagem dos proventos (a "flat tax" que alguns americanos defendem) ou, no extremo, todos a pagarem o mesmo imposto ou, como alguns, que têm muito, se vangloriam de pagarem muito pouco ou nada; etc. etc. etc.
Num sistema em liberdade, todos têm o direito de defender o sistema que consideram melhor. Em DEMOCRACIA - em que os cidadãos têm TODA a liberdade de escolherem os seus dirigentes - convencionou-se que se adopta o sistema que tiver, pelo menos, 50% + 1 dos votos expressos.
Como se vê, nada disto tem a ver com valores como honestidade, humildade e tolerância. O que é desonestidade é algum partido ou alguma pessoa apregoar-se "de esquerda" e, pelos seus actos, se está em posição de os praticar, ou pelas normas que defende ou preconiza, funcionar como "de direita". Ou vice versa.
Esta é provavelmente a razão porque alguns pretendem que tais conceitos - bem claros - estão "ultrapassados". Não querem confessar que se passaram para o campo que tanto tinham criticado.