Publicado no DNA (Suplemento do Diário de Notícias) em 3-12-2004:

A frase de João Magueijo, que o DNA destacou (19-11-2004), "... é a divisão entre os cientistas que fazem ciência e os políticos da ciência. Não fazem ciência nenhuma mas têm um poder completo sobre o que se vai fazer: quem recebe dinheiro e quem não recebe dinheiro" é uma grande verdade, à escala mundial.
Para alem da "science for the boys" e um ou outro factor do mesmo género, existem alguma palavras "mágicas" que, pela ignorância de quem decide, podem resultar em ter ou não ter dinheiro. Um caso muito evidente e realmente caricato é o que sucedeu com a palavra "biotecnologia".
Biotecnologia é um qualquer processo tecnológico que use material biológico para realizar a transformação. Fazer pão, queijo, vinho ou vinagre são biotecnologia. Os primeiros trabalhos dos mais recentes processos para fazer engenharia genética (que apareceram na sequência de outros mais antigos) foram efectuados com microrganismos usados em biotecnologia. Alguém deve ter referido esse facto, mencionando a palavra "biotecnologia", daí resultando a ideia de que era algo importante. Na base da ignorância atrás citada, quando um projecto referia "biotecnologia" era aprovado; se não continha essa palavra, não tinha sorte nenhuma.
Quando, há bastantes anos, falei nisto ao Prof. Herman Lips (um grande nome da Fisiologia Vegetal, de Israel, aliás casado com uma portuguesa) ele disse-me que já tinha tido essa experiência: "Apresentei um projecto que foi rejeitado. Reformulei o mesmo projecto mas metendo-lhe várias vezes a palavra biotecnologia e foi aprovado!" No espírito de "albarde-se o burro à vontade do dono" e como forma de conseguir financiamentos, foi assim que muitos projectos, departamentos e até firmas comerciais começaram a usar a palavra "biotecnologia", que ninguém sabe definir exactamente o que é, neste "conceito moderno".

Professor Miguel Mota
Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética