Publicado na "Vida Rural" Ano 54, Nº 1719, Julho/Agosto de 2006

 

A Europa, as Energias Renováveis e a Agricultura

Miguel Mota*

 

A guerra do gás natural entre a Rússia e a Ucrânia veio trazer à ribalta a enorme vulnerabilidade da Europa em relação à energia, originando - só agora! - clamores sobre a necessidade de desenvolver as energias renováveis. E a energia é tão essencial à vida moderna que um país ou uma região deficitários em energia estão sempre em risco de serem dominados por outros. O mundo já viu o que se passou em relação ao petróleo, em que, por três vezes, os países árabes, detentores das maiores reservas, resolveram subir espectacularmente o preço desse bem essencial e de existência limitada. Mas não aprendeu ainda a lição e não procurou incrementar suficientemente a investigação e, em muitos casos, já a utilização das energias renováveis, a única via para se defender desse risco enorme.
A Europa e particularmente os países do Sul dispõem de muita energia gratuita que o sol envia todos os dias e que pode ser utilizada de variadas formas. Para alem da energia directa, aproveitada para imediato armazenamento de calor (painéis solares) ou produção de electricidade (células fotovoltaicas) temos a energia eólica (em tempos muito aproveitada, nos barcos e nos "moinhos" vários e que começa agora a ser novamente mais utilizada), a energia hídrica, das barragens, a das ondas e a das marés, estas que já em tempos tiveram grande utilização. A energia hidroeléctrica já está a ser bastante utilizada e o que há ainda para aproveitar não será imenso.
A energia nuclear é uma possibilidade e alguns países já a usam em grande quantidade, principalmente a França. Mas não é isenta de riscos e problemas. Será uma solução - espera-se - quando pudermos ter reactores de fusão (que obtêm energia a partir da fusão de dois átomos leves) em vez dos actuais de cisão (que obtêm energia a partir da cisão de um átomo pesado, originado átomos mais leves, alguns deles altamente radioactivos e de longa vida, que são parte importante do problema). Há cerca de cinquenta anos esperava-se que a investigação fosse capaz de resolver os problemas envolvidos e que dentro de poucos anos tivéssemos a funcionar reactores de fusão. Tal não sucedeu, o que não é de surpreender pois, por definição, investigação é a descoberta do desconhecido e, portanto, sempre uma incógnita quanto aos resultados. Só agora se anuncia a construção, em França e a título experimental, com a colaboração de outros países, do primeiro reactor de fusão, cujos resultados, eficiência e custos ainda são desconhecidos.
Acontece que todas estas fontes são excelentes para produzir energia eléctrica. No entanto, enquanto os automóveis eléctricos não forem uma realidade prática, continua a ser necessário dispor de um combustível líquido ou gasoso que possamos transportar com facilidade nos veículos com motor de combustão interna, algo que o petróleo fornece de forma excelente, o que o torna um produto cobiçado e consumido actualmente em quantidades astronómicas.
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Tem sido grandemente negligenciada uma outra forma de aproveitamento da energia solar, muito eficientemente utilizada pelas plantas. Graças a um composto químico fabuloso, a clorofila, que lhes dá a cor verde, são capazes de captar a energia da luz solar para, com a água e o anidrido carbónico do ar fabricarem hidratos de carbono, algo que o homem ainda não é capaz de fazer. É através da agricultura que o homem utiliza esta forma de energia.
Durante muitos séculos, o único combustível que o homem usava era a lenha. Mas, para alem da lenha, as plantas são capazes de produzir outros combustíveis. Algumas até fabricam hidrocarbonetos, os componentes do petróleo, como é o caso da Euphorbia lathyris. Mas é possível e fácil obter álcool etílico por fermentação de hidratos de carbono e utilizar esse álcool, extreme ou em mistura com gasolina, nos motores dos automóveis. Nesse campo, o país mais avançado de todos é o Brasil onde circulam milhares de automóveis, como eles dizem jocosamente, "movidos a cachaça", dada a importância da cultura da cana do açúcar. Durante a segunda Guerra Mundial e com as consequentes restrições à importação de petróleo, em Moçambique, onde eram grandes as plantações de cana de açúcar, foi o álcool utilizado em automóveis. Chamavam-lhe a "alcoolina". Um outro produto da agricultura são os óleos vegetais, também já usados em motores diesel (e daí o nome de "biodiesel"), menos poluente que o fuel diesel do petróleo.
Para além destes líquidos, pode ainda ser usado nos motores de explosão um gás obtido por fermentação anaeróbia de detritos orgânicos, vegetais e animais, o metano (CH4), também chamado "gás dos pântanos" ou "gás do estrume". Um caso onde esta utilização estaria mais que indicada é nas regiões de criação de porcos. Em vez de constituírem terrível poluição, os dejectos destes animais seriam excelentes produtores de energia, podendo o gás ser usado para aquecimento, para entrar directamente em motores de explosão ligados a geradores eléctricos ou ser engarrafado para uso em veículos ou outras instalações.
Há mais de 20 anos tratei deste assunto (1, 2, 3. 4). Como então escrevi (1): "Se, nesta altura, já se tivesse gasto em investigação sobre energias renováveis - agrícolas e outras - o que se gastou em energia nuclear, certamente disporíamos de possibilidades que hoje não temos. É altura de meditar no problema". Mas a Europa e Portugal especialmente, ainda não acordaram para o problema.
Com todas estas possibilidades bem aproveitadas, a Europa, se o quiser, não terá dificuldade em libertar-se do enorme risco em que está, na dependência do petróleo e do gás natural. Para este, a Europa do Norte depende fundamentalmente da Rússia e a do Sul depende do Norte de África.
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Quando se iniciou a CEE, com seis países, a Europa estava dependente do estrangeiro em cerca de 50% de produtos agrícolas. Era, igualmente uma situação muito grave pois, em caso de conflito e se lhe fechassem as fontes de abastecimento, em breve capitularia. É bem sabido que os povos são mais facilmente vencidos pela fome do que pelos canhões. Na Idade Média, a melhor forma de conquistar uma cidade era fazer-lhe um cerco e esperar que acabasse a comida, o que poderia levar alguns meses mas era muito menos custoso do que um ataque a fortalezas bem defendidas. Graças à grande visão de alguns agrónomos, a CEE iniciou uma Politica Agrícola Comum (PAC), que resolveu o problema e a Europa deixou de estar dependente do exterior para comer. A PAC promoveu o desenvolvimento das culturas e a criação dos animais em que era mais deficiente pagando um preço ligeiramente acima do que vigorava nos mercados internacionais e garantindo a aquisição de toda a produção. Os erros e distorções de natureza económica cometidos posteriormente são da exclusiva responsabilidade dos que vieram depois, quando se atingiu a saturação do mercado e não souberam fazer o respectivo ajustamento. Pois é um programa semelhante que a União Europeia devia iniciar em relação à energia. E é até muito provável que o simples iniciar dum tal programa fizesse descer o preço do petróleo pois os países árabes sabem que no dia em que o mundo não necessitar do seu petróleo, rapidamente mergulham na sua antiga pobreza.
(1) Mota, M. A agricultura é que há-de substituir o petróleo. Vida Rural Nº 128, Fevereiro de 1982
(2) -------- Carros podem ser movidos a estrume. Tempo de 31 de Dezembro de 1980
(3) -------- Carros movidos a estrume. Diário de Notícias de 20 de Maio de 2001
(4) -------- O gás do estrume. Vida Rural Nº 84, Março de 1980
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética