Publicado no "Linhas de Elvas" de 2 de Junho de 2000:

 

Continuam erradíssimas as ideias sobre a agricultura

Miguel Mota*

É espantoso como tantas pessoas e tantas entidades continuam a expressar as mais erradas ideias quando tratam da agricultura. Mais de uma vez tenho mostrado o erro monstruoso dessas ideias e neste mesmo jornal publiquei em 7-6-1996 um artigo intitulado "Algumas ideias erradas sobre a agricultura".
Creio só haver duas causas para tanto erro: ou uma espantosa ignorância (mesmo quando a evidência é... bem evidente!) ou estarem os que as expressam ao serviço dos que ganham muito dinheiro com a debilidade da agricultura portuguesa e tudo fazem para manter esse estado de coisas. É possível, até, que nalguns casos coexistam as duas causas. Não tenho forma de distinguir, em cada caso, qual das causas determina comportamentos (por expressão de ideias e não só...) tão aberrantes e tão maléficos.
*
No caderno "Emprego" do "Expresso" de 25-3-2000, em jeito de editorial, é apresentado na primeira página um artigo intitulado "O fim da nossa agricultura". Com o objectivo de elucidar o jornal e, eventualmente, os leitores do nosso mais importante semanário, enviei ao "Expresso" a carta seguinte:

"É evidente que a falta de chuva, tal como o seu excesso, é algo que afecta vários sectores, entre eles a agricultura, o abastecimento de água às populações e a produção de energia hidroeléctrica. Ao longo dos milénios, em várias regiões da terra, algumas secas originaram prejuízos enormes e, por vezes, tremendas hecatombes. Mas considerar que o período que atravessamos, com a precipitação abaixo do normal, é uma dessas calamidades, destruidoras da agricultura e, consequentemente, de tudo o que dela depende, a montante e a jusante, é estar muito longe da realidade do problema.
Mas isso é o que Vitor S. Andrade diz no caderno "Emprego" do "Expresso" de 25-3-2000, n´ "O fim da nossa agricultura". E tem esta frase lapidar:

"O Alentejo é a imagem mais visível desta espécie de ponto de final que o país está a pôr na agricultura".
*
Em consequência da incapacidade que o Ministério da Agricultura tem demonstrado ao longo de algumas décadas e de várias cores políticas (fascismo, comunismo, socialismo, etc. etc.), para realizar aquilo que devia; e, até, da capacidade para actos de verdadeira destruição que tem cometido, a nossa agricultura é uma sombra daquilo que podia - e devia! - ser. Por esse facto, está a dar ao país uma contribuição para a economia que, embora não despicienda, é muito inferior à que podia - e devia! - dar, com benefícios para todos e não apenas para os agricultores.
Mas daí a considerar o seu fim e a pôr-lhe uma "espécie de ponto de final", como o "Expresso" declara, vai uma distância abismal. Basta percorrer o Alentejo para se ver que a situação, embora não seja a que se desejaria e já esteja a causar problemas e a exigir algumas ajudas, não está, nem virá a estar, em situação de "pôr ponto final" na nossa agricultura.
Em dezenas de artigos tenho, repetidamente, mostrado o que o Ministério da Agricultura devia fazer para Portugal ter uma agricultura eficiente e competitiva, como a actividade económica frutuosa que podia - e devia! - ser. Ver, por exemplo, no "Expresso" de 17-7-93 "A 'prova' agrícola que nada prova".
Como não se tem desejado fazer o que é necessário… temos uma agricultura muito inferior àquela que as nossas condições naturais permitem.

Em relação a este ano, a chuva regular e bem distribuída que caiu no Outono permitiu a realização dos trabalhos agrícolas e o nascimento e crescimento das plantas, especialmente cereais e forragens.
A baixa temperatura normal no inverno faz com que a evapo-transpiração, nesse período, não seja muito alta. Por isso, não se verificou ainda a destruição generalizada que se apregoa. As culturas que mais sofrem com esta falta de água são as forragens (que crescem muito menos) e os cereais, especialmente aqueles que foram semeados em solos delgados (muitos dos quais não deviam levar essas culturas) e as terras mais desprovidas de matéria orgânica, que muitos anos de deficientes rotações das culturas têm depauperado.
A chuva, mesmo ainda pouca, dos últimos dias, pode ter ajudado nalguns casos. Se mais alguma vier, muitas searas podem ainda ter boa produção. Naturalmente, se não chover em breve, haverá grandes prejuízos. Mas daí a acabar com a agricultura!…
A agricultura é uma actividade de risco. O agricultor não deve tomar como referência os "anos bons", mas sim a média de cinco a dez anos. Vitor S. Andrade deduz "o fim da nossa agricultura" do facto de não ter sido colocada nenhuma oferta de trabalho naquele caderno de "Emprego" do "Expresso". Mas devia saber que, com algo como 10% da população activa na agricultura, Portugal ainda poderá dispensar alguns trabalhadores desse sector, sem reduzir e até aumentando a produção e a produtividade.
Com tão infelizes conclusões, o "Expresso" está - certamente sem o desejar - a fazer o jogo daqueles que ganham muito com a debilidade da nossa agricultura e pretendem ganhar ainda mais, aumentando quanto puderem essa debilidade."

O jornal não entendeu valer a pena publicar essa carta. Nada o obrigava a tal, excepto, talvez, a conveniência em elucidar os seus leitores em face do erro. As pessoas que não estão ligadas à agricultura e que não se dão ao "luxo" de simplesmente olhar em volta sempre que atravessam regiões do País, ficaram, provavelmente, com tais ideias erradíssimas.
O que escrevi na carta ao "Expresso", sobre o que poderia ser o futuro próximo, confirmou-se. Veio a chuva e se, para certos campos, especialmente de cereais, já foi tarde, para muitos outros veio ainda a tempo de, pelo menos, fazer com que a colheita não seja o desastre total tão peremptoriamente anunciado pelo "Expresso".
Tive ocasião recentemente (na terceira semana de Abril) de atravessar algumas zonas do Alentejo e ver algumas searas que prometem uma produção aceitável. É mesmo possível que essa produção seja boa nalguns casos porque, ao contrário do que é usual no clima alentejano, este ano não se passou bruscamente dum inverno frio e chuvoso para um verão quente e seco. Neste final de Abril, as terras encontram-se bem saturadas de água, o que pode permitir aos cereais que não estavam excessivamente adiantados um razoável ou mesmo bom enchimento do grão.
Como o inverno foi pouco chuvoso, as raízes do trigo puderam desenvolver-se em profundidade, o que lhes permitirá agora encher melhor o grão. Nos solos excessivamente delgados já isso não poderá suceder, mas também é sabido que semear trigo nesses campos é um erro crasso.
Algumas culturas forrageiras, que muito sofreram com a escassez de chuva no inverno e começo de primavera, ainda poderão tirar partido da água de que dispõem e prolongarão por mais tempo do que habitualmente a sua produção de massa verde.
As estatísticas da produção deste ano agrícola é que nos vão dizer como é que os valores alcançados comparam com os da média do decénio. Mas podemos já ter a certeza de que não vai suceder a inconcebível profecia do "Expresso" e que, no próximo ano, continuará a existir agricultura em Portugal.
Se os leitores do "Expresso" se lembrarem do que ali foi escrito, perderão, certamente, uma boa parte da confiança que esse jornal justamente mereceu em tempos antigos. É fácil imaginar em que estado ficará essa credibilidade quando, no ano agrícola 2000-2001, verificarem que, afinal, vai continuar a existir agricultura em Portugal.
Embora alguns possam "lamentar" esse facto, a economia do País vai poder continuar a contar com essa muito importante actividade.