Publicado no "Linhas de Elvas de 26-10-2001:

Continuam muito erradas as ideias sobre a Agricultura

Miguel Mota*

Como uma pequena contribuição para acabar com as ideias erradas que, por ignorância ou por interesses vários, alguns (muitos) divulgam sobre a agricultura portuguesa, publiquei no LE dois artigos (1, 2). O mal continua e começo estes considerandos transcrevendo a carta que enviei ao "Expresso" em 5 de Setembro de 2001 pois, como já previa, o jornal não a publicou:

"No "Expresso" de 25-3-2000, Vitor S. Andrade, no editorial do caderno "Emprego", fez declarações bombásticas, afirmando que a seca que ocorria nesse ano era o "ponto final na nossa agricultura", actividade que deixava de existir no nosso País. O título era mesmo "O fim da nossa agricultura".
(Vale a pena dizer que esse "fim" é desejado por alguns comerciantes que ganham muitos milhões com a debilidade da nossa agricultura, em detrimento da economia nacional, e desenvolvem grande actividade a tentar passar a ideia - e, como se vê, a conseguir, em muitos casos - de que a agricultura em Portugal não tem viabilidade).
Perante a enormidade de tão aberrante "conclusão", escrevi ao "Expresso" uma carta a corrigir essas afirmações. Como o "Expresso" entendeu por bem não publicar a minha carta, fui obrigado a publicá-la noutro local, para que tais afirmações não ficassem sem ser rebatidas. Deviam, aliás, ter sido repetidamente rebatidas se não se verificasse uma tão grande apatia no sector, particularmente nos altos responsáveis, tanto do ministério respectivo como das grandes organizações da lavoura.
No caderno "Emprego" do "Expresso" de 1-9-2001, Vitor S. Andrade dá o dito por não dito e declara que a "Agricultura está viva mas…"
A falta de preparação de Vitor S. Andrade para tratar dos problemas da agricultura continua a ser evidente pois, além das erradíssimas conclusões que escreveu há mais de um ano - continua a haver agricultura em Portugal, como agora constata… - mostra não perceber onde está a diferença entre a agricultura de Portugal e a agricultura de Espanha. Seria longo explicar aqui essa diferença, mas encontra-se em centenas de artigos meus, alguns em jornais para o grande público, incluindo o "Expresso".
A razão dos erros de Vitor S. Andrade reside no facto de tirar conclusões gerais do que observa através da janela muito estreitinha das ofertas de emprego que aparecem no caderno do "Expresso" devotado a esse tema. Mas se procurar documentar-se melhor, terá de ter cuidado em não o fazer junto daqueles que são os mais directos responsáveis pelo estado da nossa agricultura".

Não compreendo como é que um jornal com o prestígio e as responsabilidades do "Expresso" publica tais disparates que, obviamente, lhe diminuem grandemente a credibilidade. Quando alguém encontra um erro tão grosseiro num jornal, fica imediatamente a pensar se outras afirmações que não tem possibilidade de verificar não sofrerão do mesmo mal.
A generalização dessas ideias erradas aparece evidente em variados locais e ocasiões. Um exemplo típico foi dado num programa de televisão, em 28 de Julho de 2001, em que o Prof. José Hermano Saraiva, a propósito de exaltar a importância do turismo, disse que "O nosso futuro não está na indústria, não está na agricultura - já não temos agricultura - as minas já fecharam... está no turismo"
Não há que diminuir a importância do turismo. Mas é sabido que é a actividade que mais rapidamente desaparece quando ocorre um problema mundial, deixando à fome quem apenas dele vive. E para o defender não é necessário dizer que o "futuro não está na indústria" (é claro que é necessário desenvolvê-la) nem que "já não há agricultura", pois é mais que evidente que há, embora devêssemos tê-la muito melhor e dando à economia do País uma contribuição muito maior do que dá actualmente. Cada vez que a nossa agricultura não abastece o País com produtos para a falta dos quais não tem desculpas (batatas, cebolas, alhos, alfaces, tomates, pimentos, melões, melancias, peras, maçãs, uvas, etc. etc. etc.) está a prejudicar-se a si própria e a prejudicar a economia do País. Isso representa menos trabalho para alguns portugueses, menor contribuição para o PIB (Produto Interno Bruto), maior inflação, maior défice na já tão desequilibrada balança comercial e a necessidade de os portugueses ganharem dinheiro noutros sectores para pagar ao estrangeiro esses produtos que tinham obrigação de serem capazes de produzir cá, melhor e mais baratos. O facto de não "precisarem" de divisas estrangeiras para os comprarem em nada altera o problema, pois os "euros" não caem do céu.
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Como se vê, e qualquer pessoa que passeie um pouco pelo país pode constatar, a agricultura continua a existir em Portugal e a contribuir para a economia nacional, embora muito menos do que aquilo que podia e devia contribuir. E a nossa economia sofre grandemente pelo facto de a agricultura estar no estado em que está. Ao longo de várias décadas e em variados locais (incluindo o LE) tenho apontado o que há a fazer para mudar este panorama tão triste e tão prejudicial à nossa economia. Tem sido, realmente, bradar no deserto e a agricultura portuguesa continua a ser, cada vez mais, batida pela de outros países mais inteligentes.
Entre os argumentos/desculpas para o atraso aponta-se a Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia. Mas basta ir a Espanha para se ver como, com a mesma PAC (e, até, com salários bem mais altos!) é possível ter uma agricultura muito melhor e mais competitiva. No primoroso editorial no Nº 3089, de Abril-Maio-Junho de 2001 da "Gazeta das Aldeias", assinado pelo meu colega Manuel Mendes de Oliveira, chama-se a atenção para esse facto.
É claro que a Espanha "sabe" que a agricultura é uma parte - e muito importante! - da economia. Em Portugal tudo indica não haver esse conhecimento, pois o governo chama "Ministro da Economia" ao simples "Ministro do Comércio e Indústria", já que a Agricultura é da competência de outro ministro. Levantei esse problema numa importante reunião no Centro Cultural de Belém, em finais de 1995 quando era Ministro (de Parte) da Economia o Prof. Daniel Bessa (considerado uma das estrelas da então nascente companhia, mas que bem pouco tempo durou no firmamento...) mas não devo ter tido qualquer eco. Ao longo de mais de seis anos e de variados Ministros (de Parte) da Economia, não vi mais ninguém apontar, sequer, essa aberração. Nem mesmo os Ministros da Agricultura que, portanto, devem pensar que o seu sector nada tem a ver com a Economia, o que talvez explique algumas das suas acções. Talvez a Agricultura seja considerada apenas folclore... É sintomático; e uma das razões que me levam a pensar que, a menos que haja um súbito ataque de lucidez nos altos comandos, a economia portuguesa vai continuar no baixo nível em que se encontra e a manter o País na cauda da Europa, a grande distância dos da frente. É pena, pois seria bastante fácil ter outra posição.

Referências
1 - Mota, Miguel - Algumas ideias erradas sobre a agricultura. Linhas de Elvas de 7 de Junho de 1996
1 - Mota, Miguel - Continuam erradíssimas as ideias sobre a agricultura. Linhas de Elvas de 2 de Junho de 2000
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado