Publicado no "Expresso" de 1 de Julho de 2006:

Excesso de flexibilidade ?

Miguel Mota

O erro de ter, em Portugal, o primeiro ciclo definido por Bolonha (três anos de ensino superior) com o nome de "licenciatura", em vez de "bacharel", como tínhamos antes da infelicíssima legislação de 1980 (que "enxertou" no nosso ensino superior um quarto grau, o "mestrado", aos três que havia, bacharel, licenciado e doutor) leva a enormes confusões. Tenta-se, a todo o custo e erradamente, dar ao nome actual o conceito antigo das licenciaturas "grandes", de que o caso típico era a medicina. E já tive de rebater a afirmação de que Bolonha "encurtou" as licenciaturas. Bolonha apenas definiu três níveis de ensino superior, sendo o primeiro de três anos. Cada país dá-lhe o nome que quer.
Para a confusão ser maior, penso que há um certo risco, ao falar de "A flexibilidade de Bolonha" (Expresso de 24-6-2006), de se pretender dar títulos de "superior" a ensino que não tem esse nível. Entram hoje no ensino superior muitos alunos com preparação nitidamente insuficiente para esse nível, de que resultam para os próprios as dificuldades referidas de alunos que não vão muito longe nesse ensino, com frustrações e perdas de tempo para os próprios. Uma das razões que levam alunos insuficientemente preparados a irem para esse nível (alem do facilitismo que se verifica da parte das instituições de ensino superior) é a escassez de oferta de cursos profissionais aos níveis do ensino básico e secundário. (Os cursos superiores também são "profissionais". Alguém acha que ser médico, engenheiro, advogado ou professor não é ter uma profissão?).
Se houvesse, em larga escala - como tenho insistido - cursos profissionais aos níveis do ensino básico e secundário, nas nossas escolas, muitos dos frustrados alunos do "superior" teriam variadas profissões, às vezes até mais bem remuneradas do que muitos dos actuais "licenciados" que, não esqueçamos, desde que se instituíram os mestrados, são considerados, internacionalmente, como tendo um "bacharelato", pois é a quem tem um "Bachelor" que se manda fazer um "Master".
Prof. Miguel Mota

Nota - A negro o que foi cortado pelo jornal