Publicado no "Jornal de Oeiras" em 19-7-2005

Os fogos florestais

Miguel Mota*

Em 2004 publiquei na revista "Floresta e Ambiente" um artigo sobre os fogos florestais em que indiquei umas quantas regras elementares para prevenir e combater os fogos florestais. Não sou especializado nessa matéria mas, como engenheiro agrónomo e ainda tendo todas as cadeiras e o estágio do curso de engenheiro silvicultor (título que não possuo porque não fiz a tese então necessária), aprendi as regras gerais que não vejo serem cumpridas.
Os fogos florestais são da competência e responsabilidade do Ministério da Agricultura. Infelizmente, há muitos anos que Portugal não tem um Ministro da Agricultura que saiba e execute o que é necessário fazer para termos uma agricultura eficiente e competitiva, que dê à economia portuguesa uma contribuição maior que a actual, embora esta não seja despicienda, ao contrario do que políticos e comentadores ignorantes continuam a apregoar. Nas últimas décadas, os ministros que não implementaram medidas destrutivas da agricultura apagaram-se e fugiram às suas responsabilidades. A Assembleia da República deixou de ter uma Comissão de Agricultura (aliás sempre muito apagada e mal dirigida) e reduziu-a a uma subcomissão. Em debates televisivos sobre fogos florestais não aparece o Ministro da Agricultura.
O combate aos fogos florestais começa com uma inteligente e correcta implantação da floresta. Naturalmente, para acção imediata nas florestas actuais, isso está fora de questão.
Na prevenção, a detecção precoce é fundamental pois, quando desencadeado, o fogo em breve toma grandes proporções e o combate é dificílimo, pouco eficaz (como se tem visto) e muitíssimo dispendioso. O que actualmente se faz na prevenção é nitidamente insuficiente. Alem dos posto de vigia (há poucos) e da detecção por aviões ligeiros, têm sido praticamente esquecidos os guardas florestais, valiosíssimos defensores da floresta que o Ministério da Agricultura parece não saber que existem.
Para as florestas existentes, frequentemente mal implantadas, creio que, para além do incremento da detecção precoce, a medida a tomar é o estabelecimento de aceiros, faixas sem árvores, de largura apropriada e orientadas tendo em vista os ventos dominantes na época de verão. Esses aceiros, além de cortarem o fogo e serem importantes para a aplicação do contra-fogo, dão bom acesso à floresta (até para a retirada dos seus produtos) e podem ainda ter outras funções como a implantação de pastagens, instalação de apiários, etc. Nas florestas, sob coberto, é possível ter algumas plantas aromáticas ou medicinais, outras de pequenos frutos e, até, cogumelos valiosos, produtos que ajudam a aumentar o rendimento dessa área.
O corte de árvores e arbustos para a abertura de aceiros - uma medida a tomar e que já devia estar em prática - talvez, nalguns casos, não seja totalmente pago pela madeira retirada, mas é certamente muito menos caro que o resultado dos fogos. Nos custos dos fogos há a considerar a perda do material ardido, a poluição e os muitos milhões de euros gastos no combate. E porque esse combate é hoje um negocio de muitos milhões, convém estar atento porque sempre que há negócios chorudos há o risco de alguns tudo fazerem para que tal negocio não desapareça.
Para concluir, o que há a fazer urgentemente e ao longo de todo o ano até chegar a época dos fogos de 2006, é implementar um mais vasto sistema de detecção, ampliar e activar o corpo de guardas florestais e iniciar uma intensa campanha para a abertura de aceiros, de forma a chegar ao verão de 2006 em condições bem diferentes das que estamos a enfrentar neste verão de 2005. O custo desse programa é uma fracção pequena do que se gasta num verão no pouco eficaz (em termos da floresta, não de casas e pessoas) combate aos fogos florestais.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética.