Publicado no "Linhas de Elvas" de 20 de Abril de 2006

A propósito da "formação"

Miguel Mota*

A produtividade portuguesa, que já considerei "A grande reserva estratégica nacional"(1), é muito baixa porque muitos dos trabalhadores portugueses, a todos os níveis, mostram não estar à altura, por falta dos adequados conhecimentos, para desempenharem eficientemente as tarefas a seu cargo. Esse mal é mais grave nos níveis mais altos, nos cargos de gestão e chefia, pois deles depende a eficiência dos escalões inferiores. Mesmo sem considerar os casos que designei de "produtividade negativa", constituídos por aqueles chefes que conseguem entravar o trabalho dos seus subordinados, as más chefias são geralmente as maiores responsáveis pela baixa produtividade dos sectores que comandam.
As baixas qualificações de grande número de portugueses resultam de deficiências do ensino. A extinção das escolas técnicas, após o 25 de Abril, privou o País de muitas pessoas qualificadas em diversos sectores profissionais que saíam dessas escolas e que ainda não encontraram substituição senão numa muito pequena parte, embora não seja difícil implementar o que já propus (2, 3). Para os que já passaram a idade escolar, é à "formação" que cabe a tarefa de remediar a deficiência de qualificações, seja fazendo cursos especiais para isso (como tem havido um certo número, embora em vários casos a principal utilidade seja dar dinheiro a ganhar aos formadores) ou procedendo a acções desse género nos próprios serviços, tanto do estado como privados. Já chamei a atenção para esse facto(4) e sei que aquilo que eu fiz foi também levado a cabo por colegas meus em variados organismos. Mas julgo que muito mais acções desse género devem ser feitas, tanto em organismos estatais como nas empresas privadas,
Tenho visto casos em que as empresas reclamam benefícios fiscais para poderem fazer a formação do pessoal a que uma lei as obriga como, por exemplo, no "DN Economia" de 6-2-2006. Fazer formação do pessoal ou fazer investigação numa empresa é algo de que a principal beneficiária é a própria empresa. A maioria dos nossos gestores ignora esse facto e essa é uma das causas do nosso atraso empresarial e da baixa produtividade, que não se remedeiam impondo, pela lei, a "formação". Sendo os próprios os beneficiários, não se justificam "benefícios fiscais". O que é conveniente é que as empresas mal geridas desapareçam, para dar lugar às que sabem o que há a fazer e que compreendem que a produtividade depende das chefias, a todos os níveis.
O estado devia fazer muito mais do que faz, nos seus próprios serviços, em matéria de formação, praticamente sem custos adicionais e apenas com um pouco de tempo roubado às actividades normais. Dou um exemplo: é corrente, em qualquer organismo, haver umas pessoas que sabem mais de computadores do que outras. É possível, na última hora do trabalho diário, durante os dias que for necessário, juntar um funcionário que sabe mais de computadores e os outros para que os últimos aprendam aquilo que ele lhes pode ensinar. O aumento de rendimento de funcionários que, por vezes, dispondo até de sofisticados computadores, não sabem utilizá-los com bom aproveitamento, justifica bem esse pequeno investimento. E são milhares de casos semelhantes, com computadores e muitos outros aparelhos e sistemas que podem ser tratados de forma a que a produtividade portuguesa deixe de ser a miséria actual.
(1) Mota, M. - "Produtividade: a grande reserva estratégica nacional". Expresso de 4 de Agosto de 1979
(2) --------- "A Declaração de Bolonha e o Ensino da Engenharia". Ingenium de Fevereiro de 2002
(3) --------- "O Ensino Profissional". Linhas de Elvas de 14 de Setembro de 2001
(4) --------- "Treinar pessoal". Linhas de Elvas de 1 de Setembro de 2005
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*Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética