Publicado no "Linhas de Elvas" de 23 de Dezembro de 2004
E na "Sintra Regional" Nº 10, Abril de 2005

Os funcionários "a mais"

Miguel Mota*

Numa entrevista na televisão em Setembro de 2004 o ministro das Finanças Bagão Félix falou dos "funcionários a mais" no Estado e especialmente no Ministério da Agricultura.
Se o ministro das Finanças estiver a colaborar com aqueles que, a todo o custo, querem liquidar a agricultura portuguesa, com grandes benefícios para os importadores de produtos agrícolas e enormes prejuízos para a economia nacional; e se não estiver interessado em que Portugal tenha uma florescente agricultura - que, aliás, lhe renderia bom dinheiro em impostos, tanto directamente como nas suas repercussões no comércio e na indústria, a montante e a jusante - é exactamente esse caminho que deve tomar.
O Ministério da Agricultura não faz hoje muitas acções que devia fazer e faz até bastante menos dessas acções do que já fez em tempos. Por essa razão, a nossa agricultura, que já era atrasada, ainda mais se atrasou em relação a todas as outras da UE. Já por lá passaram, depois do 25 de Abril, ministros dos quatro maiores partidos e todos eles contribuíram para a degradação da nossa agricultura, bem patente em qualquer supermercado. Todos têm destruído o pouco que havia dos dois serviços que são as únicas alavancas para melhorar a nossa agricultura: a investigação agronómica (que descobre as formas de agricultar melhor) e a extensão agrícola (que leva até aos agricultores os conhecimentos de que eles necessitam).
Mesmo com os escassos elementos disponíveis, mais de uma vez demonstrei o fabuloso investimento que é o dinheiro gasto nesses serviços (e tanto melhor quanto mais bem geridos forem), tão alto que o próprio orçamento do Estado recolhe, em impostos sobre as melhorias obtidas, mais do que ali investiu. Infelizmente, os vários ministros das Finanças e da Agricultura têm dado sobejas provas de que não sabem isso. E também não o sabem os Primeiros Ministros, que bem caro pagaram nas urnas essa monumental machadada que têm dado na economia nacional. As mudanças da "cor" dos governos das últimas décadas têm sido causadas essencialmente pelo estado miserável da nossa economia e esta começa exactamente pela base. O que o Pais deixou de produzir, no sector dos produtos agrícolas - quando tinha toda a obrigação de o fazer, melhor e mais barato - custou-lhe caríssimo no que teve de importar. Apenas ganharam - e muito bem!... - os importadores desses produtos (batatas, cebolas, cenouras, rabanetes, alhos, alfaces, tomates, pimentos, feijão verde, melões, melancias, laranjas, limões, ameixas, pêssegos, nêsperas, maçãs, peras, diospiros, uvas, morangos, etc. etc. etc. vindos, à vezes de bem distantes terras) em detrimento da economia nacional. Os reflexos negativos no PIB, na inflação, no desemprego e nas balanças comercial e de pagamentos são enormes. E perdem também o comércio e a indústria, pelos já mencionados reflexos que neles tem, a montante e a jusante, uma agricultura desenvolvida.
A vários ministros da Agricultura sugeri já um "Programa Intensivo de Investigação Agronómica e de Extensão Agrícola", a única forma de recuperar o tempo perdido e dar à economia portuguesa a contribuição que a agricultura pode e deve dar para uma bem mais evidente "retoma". Nenhum, até agora, o quis pôr em execução. Se continuarem as erradíssimas politicas que têm sido seguidas neste sector, a economia portuguesa vai continuar no seu passo de caracol. Em vez de se afastar cada vez mais da média europeia (como sucedeu nestes últimos anos), podia crescer a ritmo acelerado, em valores que em poucos anos lhe dariam uma posição muito melhor. O bem estar médio do povo português seria bem diferente do que é hoje.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética