Publicado no "Linhas de Elvas" de 11 de Novembro de 2004:

O futuro da agricultura portuguesa

Miguel Mota*

Algumas vezes disse a colegas com responsabilidades no Ministério da Agricultura que deviam ir tirar a licença de piloto de aviões. A razão deste aparentemente insólito conselho é o facto de na aviação não se tolerarem alguns elementares erros de gestão que vi cometer. Os prejuízos causados à economia portuguesa por esses erros elementares foram enormes e muitos deles continuam no presente, como tenho apontado em numerosos escritos, tanto em publicações para agricultores como para o grande público,.
O actual ministro da Agricultura, que não conheço pessoalmente, foi presidente duma companhia de aviação. Não sei se também é piloto mas no exercício desse cargo certamente se apercebeu que em aviação não são toleráveis alguns erros elementares que, como referi, estão na base do mau estado da agricultura portuguesa. O ministro enfrenta uma dificuldade: para resolver males que levam anos de bom e eficiente trabalho a corrigir, apenas tem um horizonte de dois anos. Se o governo não for capaz de rapidamente fazer a nossa economia dar um bom salto em frente, as probabilidades são de a coligação perder as próximas eleições, mesmo sabendo-se que os que vierem a seguir vão ser ainda piores!
(Na sua maioria, as pessoas que se "oferecem" para fazer o que apregoam são as mesmas que estiveram seis anos no poder e deixaram o Pais no estado que se sabe. Quando agora, ao criticar, o Eng.º Sócrates diz que eles farão diferente, pode perguntar-se "porque é que não o fizeram nos seis anos que governaram?").
A tarefa a realizar é difícil mas ainda é possível. Já foram perdidos dois anos e os dois que restam são pouco tempo. Mas se se iniciar urgentemente o Programa Intensivo de Investigação Agronómica e de Extensão Agrícola que já sugeri a alguns ministros, haverá alguns resultados que talvez sejam o suficiente para o País ver o que se poderá fazer em mais um mandato. Mas se não for capaz de o fazer, a agricultura portuguesa continuará a afundar-se e os que estão desesperados para voltar ao poder certamente agradecem.
A Investigação Agronómica e a Extensão Agrícola são os dois serviços que, desde que tenham o suficiente desenvolvimento e sejam bem geridos, permitem a qualquer Ministério da Agricultura transformar uma agricultura atrasada e nada competitiva numa actividade eficiente e produtiva, capaz de aproveitar as boas condições naturais e defender-se das adversas. E só nesse caso ela pode competir com as de outros países que há muito compreenderam estes factos.
Os gravíssimos erros cometidos pelo Ministério da Agricultura durante os dez anos do governo do PSD muito contribuíram, pela degradação que causaram na economia, para a derrota em 1995. O governo PS, que beneficiou de alguns aspectos financeiros positivos do governo PSD, como a drástica descida da inflação, a Expo 98, etc. - que lhe deram ainda um segundo mandato, embora este ficasse a meio - continuou a degradar a agricultura portuguesa, o que, pelo que afecta a economia, ajudou às reduções no crescimento do PIB, à péssima situação financeira, à fuga do Chefe do Governo e à derrota do PS. A menos que apareça um ministro da Agricultura que compreenda o que é preciso fazer e seja capaz de o pôr em prática eficientemente, Portugal vai continuar a afastar-se cada vez mais dos seus parceiros da União Europeia. E não serão as trocas sucessivas de governo - de quatro em quatro ou de seis em seis anos - que alterarão alguma coisa. É triste pensar no que é este País e no que podia ser, dadas as suas potencialidades.
As monstruosas importações de produtos agrícolas que aqui devíamos produzir melhores e mais baratos são uma formidável machadada na economia do País, com efeitos deletérios no PIB, na inflação, no desemprego e nas balanças comercial e de pagamentos. E devíamos ser exportadores de muitos desses produtos, assim ajudando ainda mais a economia.
Nesta antidemocrática partidocracia que nos calhou em sorte, em que os cidadãos não podem escolher livremente a pessoa em quem delegam o seu poder, só lhes resta, como forma de demonstrar o seu desagrado, não votar no partido que estava no poder e não foi capaz de fazer o que devia. Mesmo quando, como disse atrás, até calcula que o que vem a seguir tem boas probabilidades de ser pior. Daqui a dois anos saberemos se o ministro da Agricultura foi capaz de "pilotar" correctamente o seu ministério ou se continuou a série de desastres dos seus antecessores.
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* Antigo piloto de aviões e de planadores