Publicado com o título alterado para "Problemas e mestrado em gestão de ciência) no "Correio da Manhã" de 10-10-2000:

 

GESTÃO DE CIÊNCIA AO NÍVEL DE MESTRADO?

Miguel Mota*

Um anúncio que vi no jornal ("Público" de 17-8-2000) sobre um "Mestrado em Gestão de Ciência, Tecnologia e Inovação", sugeriu-me algumas considerações que julgo pertientes.
É um facto que a gestão de ciência, em Portugal, é geralmente má. A acrescentar às carências várias, a má gestão leva a que os magros meios de que o País atribui ao sector rendam menos do que poderiam render, em termos de produção científica.
A má gestão está bastante generalizada e podemos dizer que, ao longo deste século XX, não são muitos os casos em que houve boa gestão da ciência.
A gestão da ciência tem sido má a três níveis: alto, médio e baixo.
O alto nível é o nível governamental e, claro, é o mais grave, porque as suas repercussões são muito grandes. Entre os vários erros cometidos a este nível podem ser apontados:
- Manter pessoal qualificado - qualificação que se demonstra pela quantidade e qualidade dos "papers" publicados e a sua repercussão, geralmente avaliada em citações - a trabalhar em condições deficientes por carências materiais, às vezes não muito elevadas. Não colhe a desculpa da "falta de verba" porque simultaneamente se gastam verbas avultadas a criar novas instituições e se clama que é urgente formar mais cientistas. O cúmulo deste erro foi o "Programa CIÊNCIA" que, em vez de gastar, pelo menos, metade da grande verba disponível a colmatar essas carências, foi criar novas instituições e gastar imenso dinheiro a formar mais cientistas.
Levantei o problema na sessão de apresentação do CIÊNCIA, na reitoria da Universidade do Porto e, posteriormente, na sessão de apresentação do PRAXIS, nas Picoas, em Lisboa. Mas, apesar de nesta última a assembleia ter sublinhado a minha intervenção com uma salva de palmas - um sintoma de que há consciência do problema - o mal prosseguiu.
Costumo dizer que Portugal tem, na investigação científica, uma "potência instalada" de que, por má gestão dos recursos, teima em só aproveitar uma pequena parcela. E é por esse motivo que há anos venho clamando que "a prioridade das prioridades na investigação científica em Portugal é prover dos necessários meios de trabalho os cientistas de que o País dispõe".
- Um outro mal, a alto nível, é a nomeação de pessoas pouco qualificadas para a direcção de organismos, o que, tal como numa reacção em cadeia, leva a que daí para baixo muita coisa corra mal.
- A distribuição de verbas, grandemente desequilibrada, mantendo na míngua sectores bem qualificados e dando verbas, às vezes avultadas, a outros de bem modestas possibilidade intelectuais, tem tido desastrosas consequências.
Podemos considerar "nível médio" o dos presidentes ou directores de organismos. Alguns dos erros do nível governamental também se verificam a este nível, na parte que lhes compete de gestão de verbas, aprovação ou rejeição de programas e, quando é da sua competência ou proposta , a nomeação de chefes seus subordinados.
A chefia dum departamento pode ser considerada gestão a nível baixo. Tem alguma responsabilidade na gestão de verbas, porque os chefes de departamento são geralmente membros importantes de conselhos a quem cabe, quando não a decisão final, a proposta de aprovação ou rejeição de projectos, promoções do pessoal, como membros de juris, etc.
Há tempos, um trabalho, aliás bem feito, em que foi analisado - a computador - o pessoal científico dum importante organismo, chegou a uma conclusão arrasadora: não havia correlação entre "produção científica" e "progressão na carreira". Essa inversão de valores - que, pelo que sabemos, pode ser generalizada a muitos outros organismos - é normalmente da responsabilidade dos presidentes ou directores de organismos, dos chefes de departamento e dos outros elementos mais categorizados da comunidade científica. Compreende-se como são demolidoras as consequências de tais inversões de valores para a ciência dum país. Só conheço duas causas para esse mal: ou uma enorme incapacidade daqueles a quem competem as promoções ou uma enorme desonestidade, que leva a promover os piores e deixar para trás os melhores. É possível que, nalguns responsáveis, coexistam essas duas causas.
Um outro mal, a nível de chefe de departamento, é a deficiente orientação dos cientistas - e também do pessoal auxiliar - que lhe estão subordinados. E não só a orientação "formal", como a de teses de mestrado e doutoramento, mas aquela que é inerente à chefia dum grupo de cientistas.
Convém não esquecer que não são apenas os poderes que aumentam à
medida que se sobe na hierarquia, mas também as responsabilidades.
Quando um determinado escalão comete um erro ou uma deficiência na
gestão, ele não é o único responsável. Esse seu erro ou deficiência são,
também, da responsabilidade dos escalões que lhe são superiores, até ao topo.
Um ministro que nomeia um qualquer dirigente que se revela um verdadeiro
desastre à frente do organismo respectivo, degradando-o, é igualmente
responsável pelos males. Pode, até, dizer-se que, perante o povo
português, é ele o principal responsável, pois é a ele que o povo confia
a gestão do sector.

*
Em face destes considerandos, a pergunta que se me põe é esta: será que um "mestrado" em "Gestão de Ciência" resolve este problema? Ou, sequer, ajuda a resolvê-lo?
Quem tenha a noção do que é o nível dum mestrado fica, certamente, com as mais séria dúvidas.
Qualquer dos níveis de gestão de ciência atrás referidos, mesmo o mais baixo, é da responsabilidade, não só do nível de doutoramento - com ou sem doutoramento formal - mas de quem já tenha alguns anos de trabalho pós-doutoral.
Assim, afigura-se-me que qualquer curso de "Gestão de Ciência" - que aplaudo às mãos ambas! - deve ser destinado, não a "licenciados" (leia-se, a nível internacional, "bacharéis"), como se declara no anúncio e é óbvio, sendo um "mestrado", mas sim a "doutores seniors", potenciais candidatos a cargos de gestão, ou que já os exercem, mas necessitam aperfeiçoar as sua capacidades.
Em termos militares - numa comparação perfeitamente legítima - seria admitir alferes e tenentes ao "curso de altos comandos".
Na investigação científica, o fim da "recruta" é o nível de doutoramento. O recém doutorado - ou aquele que atingiu esse nível - é um principiante na investigação independente. Portanto, ele deve ter um período de bom trabalho antes que lhe possam, normalmente, ser confiados cargos de gestão.
Estas as reflexões que me foram sugeridas pelo citado anúncio.

MM 18-8-2000 0354