Publicado no "Linhas de Elvas" de 7 de Junho de 1996:

Algumas ideias erradas sobre a agricultura

pelo Prof. Miguel Mota

A agricultura continua, cada vez mais, a ser objecto de algumas ideias erradas, sem que se veja, especialmente das entidades responsáveis, uma clarificação e uma elucidação do grande público e dos agricultores em especial. Tentarei fazer um pouco dessa chamada de atenção, embora sinta - em resultado da experiência de muitos anos - que estou a "pregar no deserto", como também me dizia o grande mestre que foi o Prof. Engº Agrónomo Joaquim Vieira Natividade (1).
A causa imediata que me levou a escrever este artigo foi a leitura, no "Linhas de Elvas" de 17 de Maio de 1996, duma crónica "Europa em notícia", onde se diz:
"Os camponeses abandonam os campos: mais 205 000 empregos perdidos em 1995.
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Uma tendência inevitável que a expansão da produção agrícola, embora rápida em alguns países, não compensa." (O sublinhado das duas últimas palavras é meu).
Ignoro quem é o autor dessa "brilhante" interpretação e conclusão, já que a crónica não está assinada. Não me admirava mesmo, que tal "conclusão" fosse inspirada por sectores, nacionais ou estrangeiros, que têm interesse em que não se desenvolva a agricultura de alguns países.
Duas razões, com o "peso" de muitos milhões, aparecem para esse facto:
- Uma pode provir da agricultura de alguns países, que pretendem - e parece que lá vão conseguindo... - criar um sentimento de "incapacidade" noutros (pobres) países, para lá irem vender os seus produtos, mesmo quando esses (pobres) países têm condições para os produzir "melhor e mais barato" (2, 3).
- A outra pode ser originada em comerciantes que, quando a agricultura dum desses (pobres) países está insuficientemente esclarecida e bastante desorganizada, ganham avultadíssimas fortunas a importar produtos ou, dentro dos mesmos países, a comprá-los baratos à produção para os vender caros ao consumidor (4).
O que considero o mais espantoso símbolo dessa situação aberrante e para a qual já chamei a atenção (5) é encontrar à venda, nos supermercados portugueses, rabanetes vindos da ... Holanda! Como então escrevi:
"Como é possível que a agricultura portuguesa não abasteça o mercado nacional de rabanetes bons e baratos, de tal forma que o País não tenha que pagar os bons salários dos agricultores holandeses e os bons salários e os muitos outros elevados encargos do transporte de mais de 2.000 km, para comer rabanetes! Que é que está errado na agricultura portuguesa?"
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Voltando à crónica do "Linhas de Elvas", convém lembrar que a agricultura europeia tinha, ainda há poucos anos, um número muito exagerado de pessoas activas neste sector.
Em Portugal, ainda há poucas décadas, o número de pessoas na agricultura era de cerca de 25% da população activa. Hoje será de pouco mais de 10%, número ainda mais alto do que os de outros países.
Uma agricultura eficiente produz muito com poucas pessoas. O caso mais flagrante de um grande aumento de eficiência e de produtividade é o dos Estados Unidos. No século passado, a percentagem de pessoas na agricultura era de mais de 50% da população activa; hoje é de menos de 4%. No entanto, alimenta toda uma população que neste período mais do que duplicou e exporta avultadas quantidades de produtos.
Os Estados Unidos sempre souberam qual era a importância da sua agricultura e qual a forma de a desenvolver. Sabem o que ela representa como actividade realmente criadora de riqueza, com enormes reflexos económicos a montante e a jusante. Sabem o que ela representa como o principal elemento da defesa nacional, pois um país é muito mais facilmente derrotado pela fome do que pelos canhões. Sabem como é que se melhora constantemente uma agricultura e para isso têm - há muito tempo - uma excelente investigação agronómica e um primoroso serviço de extensão agrícola.
A Europa - globalmente - não sabe nada disso. Tendo tido, no início, a percepção da importância da agricultura, logo criou a PAC (a Política Agrícola Comum). Mas cometeu alguns erros gravíssimos na sua implementação, como já assinalei por várias vezes (6, 7). Um foi assentar o aumento de produção agrícola quase só em políticas de preços e investindo muito pouco em investigação agronómica e em extensão. Outro foi continuar a manter preços de protecção altos mesmo quando atingiu a saturação do mercado e começou a acumular avultadíssimos stocks, stocks de tal ordem que, para os manter, gasta muito mais dinheiro do que aquele que vai para o agricultor. (Vale a pena referir que, da pequena parte que vai para a agricultura, a parcela maior vai para um número restrito de agricultores. Em 1993, dum total de 7.000 milhões de contos gastos com a PAC, apenas menos de 2.000 milhões de contos foram para os agricultores. E, destes 2.000 milhões de contos, 80% do total foram para 20% dos agricultores. Isto passou-se quando a CEE era presidida pelo Sr. Jacques Delors que - só por graça, certamente - se dizia "socialista"!)
Dentro da União Europeia (como já anteriormente sucedia na CEE), há diferenças abismais em relação à forma como é encarada a agricultura. No topo da escala devemos colocar a Holanda, que se assemelha aos Estados Unidos, na sua eficiência e metodologia dos serviços devotados à agricultura. Nos lugares mais baixos encontramos Portugal e a Grécia. A própria Espanha, em má posição há algumas décadas, mostra hoje um desenvolvimento bem evidente a quem a visita e a quem conhece os seus serviços oficiais.
Neste panorama, a saída de pessoas da agricultura não é causada porque esta actividade "não compensa", como se diz na crónica que motivou estas linhas. A razão simples é que, numa agricultura eficiente e produtiva, é possível produzir o mesmo ou mais com muito menos pessoas.
A agricultura portuguesa tem vindo a sofrer as consequências dos erros cometidos pelo Ministério da Agricultura ao longo de várias décadas - antes e depois do 25 de Abril - erros que atingiram o máximo durante a última década, erros que, como já escrevi (8), deram à agricultura e à economia portuguesas maior prejuízo - pelas dificuldades de recuperação - do que a famigerada reforma agrária.
Ao longo de várias décadas venho chamando a atenção dos responsáveis para a necessidade duma bem desenvolvida investigação agronómica e duma eficiente extensão agrícola. Tem sido, como atrás referi, um "pregar no deserto". E porque os responsáveis têm sido incapazes de compreender estas verdades que continuo a considerar elementares, chegámos a 1996 com a agricultura portuguesa a ser sistematicamente batida pelas de outros países, que "aqui vêm vender produtos que nós podíamos produzir melhor e mais baratos" (2, 3).
Refira-se, também, que, há uma grande apatia da parte dos agricultores, onde, a par de muita gente com pouca escolaridade e pouco esclarecida, há um número significativo de pessoas com altas qualificações e que, por esse facto, têm mais responsabilidades. Esses agricultores deviam saber - e exigir - o que é necessário para a agricultura progredir, pois são eles os mais directamente beneficiados. Obviamente, essa responsabilidade é aínda maior em relação às grandes organizações da lavoura.
Foi por sentir a urgente necessidade de corrigir esses erros que fiz, em Abril de 1996, na V Semana de Extensão Rural, na Universidade de Évora, um apelo ao senhor ministro da Agricultura para que inicie, já, um Programa Intensivo de Investigação e de Extensão. Sem um intenso programa desse género - para o qual existem as pessoas e as infra-estruturas fundamentais e que custa apenas uma fracção do que se gasta em subsídios - não creio que haja qualquer possibilidade de recuperação da nossa agricultura e, pelo contrário, ela irá continuar a ser batida por outros, que aqui vêm vender produtos que nós poderíamos produzir melhor e mais barato.

Referências
(1) - Natividade, J. V. - Carta de 20 de Fevereiro de 1965
(2) - Mota, M. - O agricultor português. Gazeta das Aldeias, nº 2866. 1981
(3) - Mota, M. - O agricultor português e a CE. Gazeta das Aldeias, nº 3014/15. 1994
(4) - Mota, M. - Competição na agricultura. Gazeta das Aldeias nº 3035. 1995
(5) - Mota, M. - Rabanetes da Holanda! Vida Rural nº 21/92. 1992
(6) - Mota, M - A política Agrícola Comum da CEE e a Investigação Agronómica. Boletim Mensal da Região Sul da Ordem dos Engenheiros, nº 75. 1989
(7) - Mota, M. - Agricultura europeia e americana. Duas atitudes. O Diabo de 15 de Dezembro de 1992.
(8) - Mota, M. - "O que é que correu contra as previsões". Correio da Manhã de 8 de Junho de 1994.