Publicado no "Linhas de Elvas" de 19 de Março de 2004:

O "direito à ignorância"

Miguel Mota*

Ao longo das últimas décadas tem-se degradado notoriamente a preparação escolar dos alunos no ensino básico e secundário. A média de conhecimentos dos alunos que chegam ao ensino superior é baixa, com os casos notáveis das disciplinas de português e matemática.
Com o propósito de "mascarar" (em vez de anular) o insucesso escolar, passou a imperar a norma de "deixar passar" mesmo quem não sabe. Um professor que reprova um aluno que não sabe, tem muito mais problemas do que se o deixar passar. E é assim que muitos alunos chegam ao ensino superior sem saber escrever correctamente português. Ao fim de 12 anos de escola dão erros que, se em tempos antigos os dessem, no ditado ou na redacção, no exame da 4ª classe (a velha "instrução primária"), já não passavam e tinham de repetir o ano.
Assiste-se a algo espantoso, que seria impensável há algumas décadas. Viu-se na televisão um aluno a protestar muito convictamente contra a "exigência" da nota mínima de 9,5 valores para ter entrada no ensino superior. 9,5 valores numa escala de 0 a 20 significa saber menos de metade dos conhecimentos exigíveis. Quem entraria num avião cujo comandante só soubesse usar metade dos comandos do aparelho? Quem se submeteria a uma cirurgia nas mãos dum médico que só conhecesse metade dos órgãos que iria ter de cortar e coser?
Os exames só constituem um papão para os alunos que não sabem. Quando ouvimos os representantes dos pais dos alunos e um antigo ministro da Educação a quererem que não haja exames - e a chamar-lhes "paranóia" ! - e a exigir que os alunos passem de ano mesmo quando não sabem, fica-se verdadeiramente perplexo. Está a estabelecer-se algo como o "direito à ignorância", mas recebendo o diploma a dizer que sabe.
Qualquer diploma escolar, seja da velha "4ª Classe" ou de médico ou engenheiro, é um "rótulo" que oficialmente garante que o seu detentor possui um determinado nível de conhecimentos. Se o diploma é dado a quem não possui esses conhecimentos, é o mesmo que pôr um rótulo num frasco que não contem o que o rótulo indica.
Assiste-se neste momento a algo que é um grave sintoma dos males do nosso ensino. O enorme fluxo de imigrantes do Leste originou a entrada nas nossas escolas de um grande número de crianças provenientes desses países. O que se verifica é que, apesar do que seriam as dificuldades duma língua estranha, essas crianças têm um comportamento escolar superior ao das crianças portuguesas. E viva o "direito à ignorância"… com diploma "gratuito"!
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado

MM 4-3-04 0948