Publicado no "Linhas de Elvas" de 22 de Outubro de 1999:

 

O português, o inglês e a ciência

Miguel Mota

Pese embora as muito nobres intenções do Prof. Aquiles Araújo Barros, ao fazer, no "Público" de 12/8/99, a defesa do português, no artigo "Ciência mata a língua portuguesa", o problema é, no entanto, mais complexo, como também outras pessoas já assinalaram.
Insurge-se o Prof. Araújo Barros contra o facto de muitos cientistas portugueses elaborarem os seus trabalhos em inglês e, particularmente, por estudantes de doutoramento publicarem as suas teses nessa língua.
Seria, certamente, mais agradável para nós se o português fosse a língua falada em todo o mundo, em vez de ser utilizado por apenas uma parte (embora significativa) da sua população. Mas o facto de, ao longo dos milénios de existência do Homo sapiens, se terem diferenciado grupos com forma de comunicação oral própria, levou à existência, nos dias de hoje, de variadas línguas. Naturalmente, isso constitui uma barreira à comunicação entre os povos, barreira que tinha pouco importância quando as distâncias e os outros obstáculos naturais, tornavam relativamente raros os contactos entre esses grupos.
A evolução do mundo e, particularmente, dos meios de comunicação, tornou desejável, pelo menos em muitos casos, utilizar uma única língua, para que todos possam comunicar entre si. Imagine-se o que seria o controle do tráfego aéreo se cada país falasse apenas a sua língua e não houvesse uma que todos utilizassem. Num voo em que se atravessa quase metade do mundo e onde se passa por diversos países, ou os pilotos dominavam um grande número de línguas, ou teríamos o caos.
O mesmo se pode dizer em relação à ciência. Tal como no controle de tráfego aéreo, há necessidade de encontrar uma língua que todos usem, para ser possível a comunicação sem restrições.
Em tempos recuados e como consequência da expansão do império romano, a língua comum era o latim. Ensinava-se em latim e discursava-se nessa língua, pelo que qualquer estrangeiro podia comunicar. Nenhuma pessoa qualificada como erudita deixava de saber latim.
Em tempos mais modernos duas línguas europeias tiveram grande peso, que foram o francês e o alemão. Há umas dezenas de anos os cientistas suecos publicavam os seus trabalhos predominantemente em alemão.
No campo diplomático, o francês teve uma posição importantíssima e era a verdadeira língua internacional.
A perda de importância destes dois países no contexto mundial e a concomitante expansão do inglês, como consequência da expansão do império britânico e do desenvolvimento dos Estados Unidos, este principalmente após a segunda Guerra Mundial, tornaram essa língua uma verdadeira língua internacional.
As tentativas para criar uma língua independente e universal, de que a mais conhecida foi o esperanto, falharam completamente e, nos dias de hoje, é o inglês, sem qualquer dúvida, a língua universal. Algumas revistas científicas alemãs, antigas e de grande prestígio, além de só publicarem artigos em inglês, até mudaram o seu título de alemão para inglês. Assim o "Archiv fur Microbiologie" passou a ser "Archives of Microbiolgy", o "Zeitschrift fur Pflanzenzuchtung" passou a chamar-se "Journal of Plant Breeding", etc. etc. etc.
O caso das teses de doutoramento não foge a esta regra. Sendo hoje normal que os júris de doutoramento incluam cientistas de outros países, só com uma língua comum isso é possível. Já tive de argumentar quatro teses de doutoramento de duas universidades indianas (as universidades de Kalyani e de Kerala), no sistema usado nesse país. O cientista estrangeiro convidado para arguente recebe pelo correio um exemplar da tese e envia por escrito a sua argumentação e o seu voto de aprovação ou reprovação. Naturalmente, todas as teses eram em inglês.
Duma tese de doutoramento extraem-se, normalmente, um ou mais artigos científicos, muitos deles para serem publicados, em inglês, numa revista internacional. A elaboração da tese em inglês evita muito trabalho futuro.
Embora seja erro ignorar ciência publicada noutra língua que não o inglês - e isso é particularmente importante para os trabalhos antigos, quando o inglês ainda se não tinha generalizado - as listas de referências bibliográficas nos "papers" actuais são quase totalmente de textos em inglês.
Em tempos publiquei dois trabalhos sobre células mães do pólen binucleadas (ou seja, com dois núcleos), um em plantas de Avena, em inglês, numa revista inglesa de Genética e o outro em plantas de Triticale, em português, numa revista portuguesa. O primeiro está citado por vários autores; o segundo é ignorado.
Quando, há bastantes anos, o Instituto Português de Oncologia concedeu o Prémio A. J. da Silva Pereira ao meu trabalho "The action of seed extracts on chromosomes" (onde, aliás, começaram as observações e as ideias que uns anos depois me levaram a publicar uma teoria - hoje bastante aceite no mundo - para explicar o movimento dos cromossomas na anafase), foi-me pedido que fizesse uma tradução para português. E foram as duas versões publicadas na revista do IPO, o "Arquivo de Patologia". Hoje isso, certamente, não sucederia.
Por todas estas razões, é conveniente que os cientistas portugueses continuem a publicar os seus artigos em inglês. Caso contrário, é quase certo que serão ignorados.
O que fortemente recomendo é que os cientistas portugueses façam, com base nos seus artigos científicos, versões em português, despidas dos pormenores dos trabalhos científicos, para publicação em revistas portuguesas de divulgação, tanto para o grande público - que, tradicionalmente, ignora muito do que se tem feito em Portugal ao longo dos tempos - como para técnicos e cientistas de outros sectores. É escasso, em Portugal, aquilo que eu chamo "divulgação a alto nível", que tanto contribui para ampliar o conhecimento geral e para que especialistas dum campo tenham conhecimento - apresentado de forma simples e de fácil absorção - do que vai sendo criado noutros sectores.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado