Kyoto Chronicles/ 1

Manuel Mota

12 de Julho 2005

Primeiras impressões

A chegada é (pode ser, e preferencialmente) por Osaka (Kansai Int. Airport); Kansai é a região a que pertencem as cidades de Osaka e Kyoto. A viagem é muito longa desde Lisboa, com escala em Frankfurt. De imediato ficamos com a sensação de um aeroporto já não muito moderno, mas com boa organização, traço geral da sociedade japonesa. O clima, esse é uma surpresa para nós mediterrânicos habituados a verões quentes e secos: aqui o S. Pedro abençoa-nos diariamente com uma chuvinha miúda que se pode transformar ao longo do dia, e nos momentos mais inesperados, numa chuva torrencial, tipo tropical. Até agora, e tirando raras excepções, tem chovido TODOS OS DIAS. A Inglaterra, com o seu característico "verão inglês", por comparação, é uma maravilha.

A primeira impressão do povo é a mais positiva possível. Afáveis, compreensíveis, educados, preocupados com o estrangeiro e se este se sente bem no Japão. Percebe-se logo isso até pela comunicação por e-mail, em que há resposta pronta e segura, ao contrário de Portugal que parece ter as pessoas mais ocupadas deste mundo. Também no assumir escrupuloso dos compromissos os japoneses parecem ser impecáveis: se é verdade que negociar algo pode ser moroso e complicado, a partir do momento em que se estabelece um compromisso, ou um plano de trabalhos, ele é honrado e seguido à risca. Chico-espertismo e aldrabice não fazem parte da maneira de ser japonesa. Recentemente tive necessidade de deixar na SONY uma câmara de video para uma pequena reparação, tendo pedido para a mesma me ser enviada para a universidade. Chegou, efectivamente, em muito pouco tempo e com uma notificação para ir pagar a factura ao banco, para a conta x.! Impossível em Portugal, onde naturalmente a máquina só seria entregue contra recebimento.

É fácil entender a reacção dos nossos antepassados, como p. ex. o Padre Luis Fróis ou S. Francisco Xavier que dizia " a gente … a melhor que até agora descobrimos". De entre os primeiro portugueses (e ocidentais) a chegar ao Japão encontra-se o meu "primo" António Mota, um dos 3 náufragos a dar à costa, em Tanegashima, em 1543, altura da famosa introdução da "espingarda" que tanta influência teve na política e domínio dos shoguns da época. Esta cena está bem recriada no video produzido por altura da Expo 98.

A ligação entre Portugal e o Japão é algo já de longa data e com imensas implicações, nomeadamente na própria linguagem. Aliás fiquei com a impressão que os japoneses sabem muito mais a nosso respeito do que nós acerca deles. E espanto dos espantos, conhecem-nos sem ser por causa do Figo ou do Euro 2004, de que aliás a maior parte desconhece! Segundo parece, existem cerca de 500 palavras portuguesas que deixaram marca no idioma japonês. Este, o hiragana coexiste com os caracteres de origem chinesa, o kanji e o katakana, especialmente criado para acomodar termos ocidentais, impossíveis de descrever com o hiragana (http://www.omniglot.com/writing/japanese.htm). Para um estrangeiro é incompreensível como se consegue coexistir linguisticamente com 3+1 (o alfabeto) idiomas. Seria como se em Portugal tivéssemos retido o grego e o árabe, na nossa linguagem latina!

Outras figuras de relevo foram Wenceslau de Moraes, consul em Kobe, que acaba por deixar Portugal e as carreiras de oficial da marinha e diplomata, no início do séc. XX casando com uma japonesa, O-Yone, e morre em Tokushima. De entre vários livros e estudos que escreveu sobre o Japão (Dai-Nippon) destaca-se o "Culto do chá". Mais recentemente, é de destacar o embaixador Armando Martins Janeira, conhecido pela produção de um dicionário japonês-português e um profundo conhecedor da cultura japonesa.

Kyoto

Uma outra agradável surpresa inicial é o combóio de Osaka para Kyoto (uma viagem de cerca de hora e meia). O Japão é conhecido pelo seu sistema ferroviário, possívelmente o mais desenvolvido do mundo, com o famoso shinkansen, ou combóio-bala, um antecessor to TGV, a funcionar desde 1964, ocasião da Expo em Osaka, e cuja última versão está prevista para 2001 e atingir a velocidade de 360 km/h (http://news.bbc.co.uk/2/hi/asia-pacific/4621217.stm). Contaram-me no outro dia que a ideia teria sido gizada pelos ingleses, no período do pós-guerra, mas que desistiram ao se aperceber dos custos exorbitantes. Ainda hoje é um tema de discussão (http://www.transportblog.com/archives/000413.html). Alguns minutos antes da partida de Osaka, uma pequena equipa de limpeza, muito eficiente, encarrega-se de limpar as carruagens que irão ser utilizadas pelos passageiros. Dizem-me que é um procedimento habitual nas estações onde os combóios param pelo menos 10 minutos.

Kyoto é uma agradável cidade, antiga capital do reino, com 1.5 milhões de habitantes, de dimensão muito razoável e contrastando com os 8 milhões de Tokyo. Embora ainda não tenha feito muito turismo, já deu para entender que há aqui muita história para entender e monumentos e santuários a visitar. O que visitei até agora, o Ginkaku-ji ("templo de prata"), do séc. XV, surpreendeu-me não tanto pelo edifício em si, de proporções modestas, mas pelos seus delicados jardins, outra das marcas de qualidade japonesa. O jardim japonês tem servido de modelo, mundialmente, para tantos jardins ocidentais, basta ver o da Fundação Gulbenkian. A arquitectura tradicional japonesa é outra imagem de marca, simples, estéticamente apelativa, e bela.

A cidade de Kyoyo, essencialmente plana e a 380 m de altitude, encontra-se enquadrada por 3 cadeias de colinas, uma a Leste, uma a Oeste a outra a Norte. A vegetação dominante é a Cryptomeria japonica (cedro japonês), 2 espécies de pinheiro, Pinus densiflora (Japanese red pine) e Pinus thunbergii (Japanese black pine), um acer asiático e um carvalho asiático (Quercus mongolica), para além do Gingko biloba (http://www.xs4all.nl/~kwanten/), uma autêntico fóssil vegetal vivo! Os pinheiros encontram-se em franco declínio devido à doenca do nemátode do pinheiro (Bursaphelenchus xylophilus; razão pela qual me encontro aqui) (http://psu.missouri.edu/forent/beijing.htm) que persiste há décadas, sem sinais de erradicação a breve prazo. A história desta praga no Japão é trágicamente interessante, dado ter constituido um caso de prolongada negligência, a que os cientistas e autoridades públicas japonesas apenas começaram a responder nos anos 70, altura em que as perdas de madeira atingiram os 2.4 milhões de m3 , anual, em 1979.

Falando de habitações, surpreendeu-me as dimensões interiores de uma habitação média japonesa, minúscula. Esta forma de viver no Japão, em que tudo é pequeno, as casas, os automóveis, as ruas, etc… certamente estará relacionado com o facto de os 125 milhões de japoneses, terem tido que se habituar a viver numa ilha montanhosa, parte do "anel de fogo do Pacífico" (com 60 vulcões activos), proporcionalmente reduzida, com 380 000 km2 (aprox. 4 vezes a área de Portugal) (http://www.mlit.go.jp/river/english/land.html).

Também o preço do aluguer é uma - desagradável - surpresa! O micro-apartamento onde me encontro, consitutido por uma única divisão de 10-12 m2, com um quarto de banho mais pequeno que o do Airbus em que vim, e com uma kitchenette, à entrada, arrenda por ca. de € 650! (Inclui electricidade e água). E é considerado um achado. Maior é o gabinete que me disponibilizaram na Universidade, esse sim com condições excelentes, ligacão internet, máquina de café, etc… Ah, e ar condicionado. É impossível viver sem ele, creio que ainda não entrei numa habitação que o não tenha.

A população de Kyoto parece usufruir de um muito razoável nível de vida, sem pobreza (aparente), não se vislumbrando algo parecido com os infelizmente frequentes bairros da lata na nossa terra. Também não encontrei até agora zonas particularmente ricas, dando a sensação de o Japão ser uma espécie de Escandinávia do Oriente, com elevado nível de vida, impostos relativamente elevados, mas assistência e segurança social generalizada, combinado com um elevado desenvolvimento industrial, técnico e científico, e diversos prémios Nobel no curriculo do país. Há numerosos institutos e universidades mundialmente reconhecidos como locais de excelência, o que as torna pólos de atracção de estudantes de todo o mundo, como sucede, p.ex., nos EUA, país com quem aliás o Japão tem um relacionamento muito especial, amigável. Na região (extremo oriente), não se pode dizer que o Japão conte com muitos "amigos", e em especial os paises que mais sofreram com o imperialismo japonês.

Quando se fala dos tempos negros do imperialismo japonês das décadas de 30 e 40, o japonês médio não gosta de falar muito disso. Os mais dispostos a falar nesta temática remetem esse período para algo de excepcional na maneira de ser do japonês, correspondendo a um período de intensa industrialização e expansão do Império, com um grupo extremamente bélico e ambicioso nas rédeas do poder, e com a anuência do Imperador Hirohito (em Nanjing, 350 000 chineses foram massacrados pelas tropas japonesas, a chamada "violação de Nanjing").

Kyoto University

A Universidade de Kyoto, onde me encontro até Setembro como Prof. Associado Convidado, foi fundada em 1897 (http://www.kyoto-u.ac.jp/english/etop2/e01-top.htm), conta com cerca de 20.000 estudantes, tendo sido a segunda universidade japonesa a ser fundada, encontrando-se repartida por três campus, na cidade e arredores de Kyoto. Conta já, desde o pós-guerra, com cinco laureados com o prémio Nobel, a maioria na área da Física e da Química. Recentemente, num ranking efectuado pelo jornal britânico "The Times", Kyoto University surge na posição nº 29, numa lista de 200. O campus principal, onde me encontro (Yoshida) situa-se na região NE da cidade e numa zona não muito populosa e barulhenta. Os edifícios encontram-se imersos numa agradável zona verde, de que destacaria o já mencionado Gingko biloba. Povoando estas árvores, encontra-se uma numerosa comunidade de corvos, que "grasnam" o dia todo. Creio que nunca vi tantos num só local.

A vida académica desenrola-se como em qualquer outra universidade, com as suas faculdades, departamentos, etc… Desde a chegada que fui sempre bem tratado, tanto pelo meu colega anfitrião, como pelas pessoas que trabalham no gabinete de relações internacionais do "College of Agriculture/ Graduate School of Agriculture". Todos os assuntos de indole burocrática são tratados por Ms. Morita, de forma profissional e atenciosa, uma vez mais reflectindo a preocupação japonesa para com os estrangeiros, que são muitos (creio que cerca de 1250) e de todas as partes do mundo, embora maioritáriamente do extremo oriente (China, Indonésia, Coreia, etc..).

Na primeira semana fui logo apresentado aos colegas da faculdade, tendo eu transmitido algumas palavras de saudação e agradecimento pela hospitalidade, sublinhando ser apenas a continuação de um relacionamento entre dois países, com mais de 450 anos. Percebi então, e em conversa posterior, que a maioria dos presentes estava bem ciente da História comum desde o século XVI e da importância dos Portugueses. Quantos portugueses saberão algo sobre a história do Japão, para além das bombas de Hiroshima e Nagasaki? O relacionamento entre o professor (sensei ou mestre) e os estudantes, em particular os de pós-graduação, é excelente, e de um elevado sentido de respeito mútuo e de colaboração. As aulas, no meu caso, são dadas naturalmente em inglês, uma vez que não falo japonês, e também porque os alunos são de proveniências tão diversas como o Brasil, Japão, Indonésia, India e Vietname. O tratamento cordial entre colegas e mesmo com estudantes é o Mota-san. Todas as segundas-feiras há uma pequena reunião com todos membros do nosso laboratório (cerca de uma dúzia) para discutir as actividades a desenvolver durante a semana.

O acesso a bibliotecas e outras instalações universitárias é o mais aberto possível. Os edifícios encontram-se abertos 24 horas por dia, sete dias por semana, sendo a segurança estabelecida de forma racional, e sem recurso a muito pessoal. Cada pessoa que aqui trabalha é co-responsável na segurança e acesso. Soluções tão simples como um fecho interior nas portas principais, a partir das 20h (com acesso garantido aos utentes pela cedência de uma chave individual das portas principais), fazem-me lembrar o quão ridículas são por vezes as dificuldades com que deparamos em situações semelhantes, em edifícios públicos de universidades e institutos de investigação em Portugal!

A vida por cá

É conhecida a fama que o Japão tem de país caro. Globalmente é verdade, mas há também que saber como viver e onde gastar os nossos ¥¥¥ (1€ = aprox. 133 ¥)! Coisas como casa (renda) são sem dúvida a maior discrepância, em relação a Portugal. A solução que o meu colega encontrou para a minha estadia de três meses, por exemplo, foi considerada um autêntico achado. Enfim, são as leis do mercado local, da oferta e da procura, não valendo a pena tentar perceber o porquê. Também na Europa temos preços absurdos em certos bens e serviços.

Os transportes são de qualidade. A cidade está bem servida, seja de combóios, metros, autocarros, etc… e apesar de um elevado número de táxis, encontramos igualmente um ainda mais elevado número de bicicletas, milhares na verdade, um transporte muito conveniente numa cidade plana. Nunca pensei voltar a utilizar, desde os meus quinze anos, tal meio de transporte! Mas que bem sabe, e que belo exercício físico. Quanto aos táxis, é impressionante o cuidado que o taxista coloca na sua farda e gravata, para além de todos os táxis terem um sistema de abertura de porta traseira, comandado pelo taxista. Aliás, o fardamento é algo central na cultura empresarial japonesa, elemento identificador profissional, e de classe. Raras são as profissões (p.ex., universitários e diplomatas) que as não usam.

Quanto a alimentação, e passada a fase de tentar perceber a identidade dos milhentos produtos disponíveis no supermercado (raros são os produtos com indicações úteis, em inglês) nota-se que é perfeitamente possível fazer as compras de supermercado, semanalmente, por um custo semelhante ao que temos em Portugal, nalguns produtos até bastante mais barato.

Comer fora também pode custar muito pouco, nos pequenos restaurantes, sushi bars, etc… ou pode custar uma pequena fortuna para quem se arriscar a aventurar-se nos sofisticados restaurantes do centro, especializados como os shojin ryori, típicos de Kyoto (http://www.bento.com/kansai/kc-kyoryori.html), onde uma refeição pode fácilmente atingir os ¥ 10 000 (aprox. € 75), já para não falar do famoso "bife de Kobe", em que só este prato pode atingir os ¥ 20 000 (aprox. € 150). É considerado o bife mais caro do mundo. No dia a dia, p.ex., é comum as pessoas almoçarem um conteúdo, diversificado, contido numas pequenas embalagens de plástico, conhecidos como o-bento, e que não custam mais de ¥ 500 (€ 4).

A comida japonesa tem muitos poucos molhos, sendo a base o arroz, o peixe, ou massas à base do "trigo sarraceno" (Fagopyrum esculentum), não utilizado no Ocidente. Os cereais, tipo trigo, têm pouca representatividade, até porque o País não possui as condições edafo-climáticas para a sua produção, o que faz com que o pão seja pouco consumido, ou quando o é, trata-se de um alimento "exótico", ocidental. O mesmo se poderá dizer da batata. Podem no entanto encontrar-se patisseries e padarias. Um facto é evidente: práticamente não há obesidade no Japão, sendo também um dos países mundiais com menos problemas de saúde na área das doenças cardiovasculares e cancro.

O arroz - cuja variedade local (Oryza sativa, var. japonica) tem mais "goma", e é portanto mais pastosa, ao contrário da variedade oriunda da India, mais solta - é frequentemente cultivada nos quintais das grandes cidade, como em Portugal acontece com as couves e as alfaces dos quintais. O peixe, nas suas mais variadas espécies, é um bem essencial, e consumido de diversas formas, sendo a mais famosa e típica talvez, o sashimi que é no fundo constituido por fatias de peixe crú, o mesmo sucedendo com algumas formas do sushi.

Uma curiosidade que julgo ser única: os restaurantes têm frequentemente à entrada, na montra, perfeitas reproduções em plástico, dos pratos que servem, o que ajuda bastante o estrangeiro que não domine suficientemente a língua, para entender o menu. Uma desilusão é o café que é, no geral, de muito má qualidade, sendo quase impossível, p.ex., encontrar uma casa que tenha café expresso. Vale-nos a compra, em pacote, de café brasileiro. Quanto ao famoso saké, o que provei até agora não me convence, mas dizem-me que existe uma gama variada, pelo que há que degustar primeiro e opinar depois. Encontrei, isso sim, um produto que me lembra a infância, e de que nunca mais se ouviu falar em Portugal, mas que nos anos 60 era muito popular: o ajinomoto! Pois aqui continua em grande (http://www.ajinomoto.com/) .

Uma área difícil, para um estrangeiro que não fale japonês, é sem dúvida a comunicação, dado que poucos japoneses falam inglês, criando-se por vezes situações complicadíssimas. E mesmo assim, no meio académico, ainda temos alguma vantagem, pela necessidade da utilização do inglês como idioma científico internacional. Assisir a uma apresentação científica, em inglês, por um colega ou estudante japonês, pode constituir uma verdadeira sessão de tortura! Por comparação, o português médio passa por um cultíssimo shakespeareano no que toca a falar o idioma britânico.

A televisão é exclusivamente em japonês, não havendo a mínima hipótese de acompanhar sequer as notícias, a não ser por satélite ou cabo. E mesmo as raras séries ou filmes ocidentais que passam têm aquela irritante característica, tão do agrado dos nuestros hermanos, que é a dobragem! No cinema, já não é assim, sendo possível optar por ver uma película no original (seja inglês, alemão, francês….). Aqui também há telenovelas, pois claro! Umas, passadas nos dias de hoje, são de tal modo hilariantes que fazem qualquer novela brasileira das 10 parecer um interessantíssimo exercício dramático e intelectual, cheio de profundidade e conteúdo. Há as outras, essas sim com interesse, que retratam épocas passadas, século. XVII, p.ex., em que dominavam os shoguns. Mesmo sem entender a linguagem, a dramatização e representação, em conjunto com a cenografia, fatos, etc… tornam-se agradáveis de assistir.

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