Publicado no "Público" de 6-9-2002:

O problema da matemática. Uma sugestão

Miguel Mota*

É geralmente conhecido que as diferenças de qualidade dos professores originam diferenças no nível de aproveitamento dos alunos. A minha experiência pessoal, num caso concreto, passado há muitos anos, mostrou-me isso duma forma muito evidente.
Quando andava no liceu e já depois de ter feito o exame do 2º ano, deu-se uma alteração e passou a haver exames finais no 3º, 6º e 7º anos. Do 3º ao 6º tive um muito mau professor de matemática (dizia-se que, na juventude, tinha sido gaseado na I Grande Guerra) de forma que a minha preparação (e a dos meus colegas) era deficiente, apesar de termos passado no exame final, no 6º ano. No 7º ano, felizmente, tive um dos melhores professores de matemática de então, pelo que a matéria - essencialmente a trigonometria - ficou sabida excelentemente, ao contrário da dos quatro anos anteriores, que me obrigou a um trabalho extra, na universidade, nas cadeiras dos três primeiros anos que eram a continuação ou usavam intensamente a matemática.
Deste enorme contraste julgo que se pode tirar uma conclusão: há que envidar esforços para melhorar a qualidade do ensino, melhorando a preparação dos professores.
Se sabemos que algumas pessoas têm melhor tendência e capacidade para o ensino do que outras, a verdade é que uma boa preparação, tanto em relação à matéria a ensinar como em relação às técnicas pedagógicas, podem melhorar muito a capacidade dum professor. O problema não é exclusivo da matemática, pois é idêntico em todas as matérias. Mas o facto de a matemática estar neste momento em nível muito baixo torna-o mais agudo e a exigir urgente actuação.
O que me parece que há a fazer é uma grande série de pequenos cursos ou sessões de actualização. Numa ou duas semanas "roubadas" ao ensino essas acções devem compreender conferências, que podem ser para um vasto auditório, por professores bem qualificados, a fazerem revisões da matéria; e sessões de metodologia pedagógica, para grupos mais restritos, em que haja amplo debate e se troquem experiências sobre a melhor forma de ensinar.
No regresso às suas escolas os professores estarão em condições de ensinar melhor e de mais facilmente despertarem nos alunos interesse pela matéria. E bem sabemos como é importante que o professor seja capaz de despertar interesse nos alunos, pois é meio caminho andado para melhor compreenderem e estudarem a matéria.
Penso que continua a haver, como havia há anos, uma apetência grande dos professores por tais cursos. Colaborei nalguns, para professores de biologia, organizados pela Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, tanto num período em que fui Vice-Presidente como alguns anos depois. Mesmo sem quaisquer vantagens oficiais para promoção, mas certamente porque qualquer professor se sente melhor quando o seu ensino é bom, a participação era sempre grande. No programa de actividades da Sociedade Portuguesa de Genética, a cuja Direcção tenho a honra de presidir, está prevista a realização de cursos de actualização dessa matéria e já um bom número de professores mostrou o seu interesse.
A organização de tais cursos de actualização não é difícil nem acarreta grandes encargos. Pode e deve ser iniciada imediatamente e não conheço outra forma de melhorar rapidamente o ensino, não só da matemática, mas de todas as matérias. É esta a sugestão que ofereço ao Senhor Ministro da Educação e ao meu amigo António Manuel Batista.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado