Publicado no "Linhas de Elvas" de 29 de Dezembro de 2005:

Os números que faltam

Miguel Mota*

Durante a campanha eleitoral para Presidente da República, vários candidatos fartam-se de acusar os outros de vários males e elogiar-se a si próprios. No entanto, que eu visse, ninguém apresentou os elementos estatísticos que apoiassem essas afirmações, particularmente em relação aos valores económicos, que descrevessem a evolução do País, assinalando os períodos de vigência dos senhores responsáveis por cada período.
Os cidadãos portugueses não têm facilmente à sua disposição os principais elementos estatísticos do País. E parece, mesmo, que não se interessam em conhecê-los, o que é um mau índice de cidadania. Pelo menos no caso das eleições, esses elementos seriam muito úteis para avaliar o que se pode esperar de cada candidato, especialmente dos que tiveram responsabilidades no legislativo e no executivo.
Seria muito conveniente que uma qualquer instituição, preferivelmente independente, fizesse essa análise e publicasse os resultados, com os números e os gráficos (estes mais fáceis de análise rápida) dos indicadores mais relevantes. Os próprios partidos, pelo menos aqueles que tenham algo relevante para mostrar, deviam dar ampla e correcta publicidade a esses elementos.
Sem ter a pretensão de oferecer uma lista completa, indico adiante alguns indicadores de que julgo deveríamos ter os valores anuais, para um período relativamente longo. Para a análise ser significativa, penso que os últimos 60 anos (30 antes e 30 depois do 25 de Abril) dariam um excelente retrato da evolução do Pais. Alguns dos indicadores que julgo importantes são:
Valores do PIB (a preços correntes) e sua distribuição pelos principais sectores; taxa de crescimento do PIB, em relação ao ano anterior; inflação; défice orçamental (valores totais e em percentagem do PIB); dívida pública; salários (a média e sua distribuição por grupos); exportações e importações; número de estudantes nos diferentes graus de ensino; percentagem de analfabetos; número de estudantes que completaram o curso, para os diferentes graus de ensino; construção civil (número de fogos, edifícios públicos, salas de aula, estradas, etc.); e quaisquer outros elementos considerados relevantes.
No período após a adesão à CEE, deveriam indicar-se, para cada caso, também os valores para a média da CEE, actualmente UE.
________________________________
* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética