Publicado no "Jornal de Oeiras" de 13 de Junho de 2006

O peixe e a hortaliça

Miguel Mota*

São frequentes as notícias sobre as enormes diferenças de preço entre aquilo que recebe o produtor e o que paga o consumidor. Isto é, o intermediário é quem mais lucra. Este fenómeno verifica-se com grande intensidade nos produtos agrícolas de consumo directo, nomeadamente frutos e hortaliças, e no peixe. Há dias, um jornal diário, dizia, na primeira página e em grandes letras, que o "Peixe sobe dez vezes da lota à mesa". Se esta situação é óptima para os intermediários, é certamente muito má para a economia da maior parte das famílias e uma grande injustiça social.
O comércio é uma actividade útil e conveniente. Mas quando se hipertrofia a este ponto é um mal grave para a economia de qualquer país. A solução para remediar este mal é conhecida há muito e depende dos dois lados, produtores e consumidores. Qualquer destes sectores, organizado em cooperativas, fica em condições de reduzir drasticamente o mal, estabelecendo uma relação o mais directa possível entre aqueles que produzem e aqueles que consomem, com grandes benefícios para ambos. Só há que ter consciência do problema e vencer a inércia. As pessoas que se queixam da carestia da vida e como lhes "sobeja sempre mês no fim do dinheiro", deviam dar os passos necessários para deixar de pagar tanto aos que lhes vendem caros aqueles produtos, bem como os produtores que se queixam de receber pouco. Dizia a notícia acima referida que os pescadores desesperam por causa do aumento dos combustíveis, etc. Mas se o consumidor paga dez vezes o que recebe o pescador (nos produtos agrícolas a diferença é semelhante ou maior), uma boa organização cooperativa poderia ser ela a vender aos consumidores. E se estes estiverem igualmente organizados em cooperativas, de forma a estabelecer uma ligação o mais directa possível, os dois sectores poderiam repartir entre si os lucros anormais dos intermediários. Todos ganham excepto aqueles que hoje ficam, ilegitimamente, com a maior parte do bolo.
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Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética