Publicado no "Diário Económico" de 24 de Janeiro de 2000:

PIB, Défice, Inflação e Produtividade

Miguel Mota*

Há um conjunto de valores ou índices que fazem parte "obrigatória" das análises dos economistas de todo o mundo: PIB, inflação, taxas de juro, preço do petróleo, desemprego, défice orçamental, balanças comercial e de pagamentos, dívida pública, etc. etc.
Mas há um outro factor de que só raramente se fala e cuja importância me parece ser fundamental e que, portanto, devia ser mais considerado. Até porque é um dos campos em que é possível conseguir grandes melhorias. Refiro-me à "Produtividade", ou seja, à relação entre os factores de produção e o produto obtido. Num artigo já antigo (no "Expresso", há mais de vinte anos) considerei a "Produtividade: a grande reserva estratégica nacional".
De facto, como disse no início desse artigo, "um dos mais graves males do nosso país é a muito baixa produtividade", em quase todos os sectores. E indiquei alguns aspectos gerais e exemplos de pormenor do que é importante fazer para levar o país a dar um enorme salto em frente, com benefício para todos.
Não tenho conhecimentos que me permitam dizer o que se pode fazer para aumentar a produtividade no sector da indústria. Mas em relação à agricultura sei que há um enorme potencial que, ao longo dos anos, tem sido desperdiçado, o que levou esse importante sector da economia portuguesa ao estado em que se encontra. Os resultados duma acção deficiente, ao longo de vários anos, são graves repercussões, não só na agricultura, mas noutros sectores de actividade, nomeadamente a indústria e o comércio, a montante e a jusante. E influencia, também, alguns dos índices acima referidos, com acção sobre o PIB (através do PAB, o Produto Agrícola Bruto, e não só), da balança comercial (com a quantidade enorme de produtos agrícolas que importamos - que não deviam ser necessários - e dos que não exportamos), no desemprego e até na inflação.
Em relação ao desemprego, se uma agricultura eficiente produz mais com menos pessoas, também é capaz de encontrar novas actividades agrícolas actualmente não praticadas, normalmente com grande especialização, como sejam culturas mais sofisticadas ou a transformação de alguns produtos.
Mas onde o desenvolvimento da agricultura cria mais empregos é nas actividades industriais e comerciais que lhe estão associadas, a montante e a jusante. Em 1986, num artigo intitulado "A posição da agricultura nas exportações portuguesas" ("Vida Rural" nº 225), comentei uma análise económica das 200 maiores empresas exportadoras portuguesas publicada no "Diário de Notícias", que concluía pelo "pouco peso da agricultura nas exportações". Mostrei, ali, que algumas das principais dessas 200 maiores empresas exportadoras da indústria eram de produtos cuja matéria prima provinha da agricultura que assim, indirectamente, "pesa", realmente, nas exportações portuguesas.
Num segundo artigo, ainda em 1986, intitulado "Como a indústria depende da agricultura" ("Vida Rural" nº 240), comentei uma outra analise económica (do "Semanário" de 30-8-86) intitulada "As maiores empresas industriais. Sector por sector. 1985", que incluía 2 000 empresas. Citando o meu artigo anterior, comecei por esclarecer que:
"É óbvio que nesse artigo em nada quero diminuir a importância da indústria. Apenas pretendi chamar a atenção para a ideia tão generalizada - e que o Suplemento do "Diário de Notícias", embora sem essa intenção, alimentava - de que a agricultura é uma pobre actividade, secundária e de pouco interesse".
Muitas das 2 000 empresas listadas distribuíam-se pelas seguintes rubricas: Alimentação, Bebidas e tabaco, Texteis, Couro, pele e calçado, Madeira e mobiliário, Cortiça e Pasta de papel. Isto é, tudo empresas industriais (e só eram consideradas na lista "as maiores") que dependiam da agricultura para lhes fornecer a matéria prima. É claro que pode importar do estrangeiro essa matéria prima, mas nesse caso o país terá de encontrar divisas para a pagar e ficará mais dependente dos outros países.
Não cabe no âmbito deste artigo pormenorizar o que há a fazer para aumentar a produtividade da nossa agricultura. Aliás, tenho-o exposto em dezenas de escritos, não só em publicações especializadas como noutras para o grande público. Direi apenas que, enquanto o Ministério da Agricultura não tiver em bom funcionamento um amplo e eficiente serviço de Investigação Agronómica e um bom serviço de Extensão Agrícola, podemos ter a certeza de não ter uma agricultura eficiente e produtiva.** O que se tem feito nesse sector, nas últimas décadas, tem sido uma degradação do pouco que já houve, o que fez o País perder alguns milhares de milhões de contos.
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O aumento de produtividade que Portugal pode conseguir não se limita à agricultura, mas deve atingir todos os sectores. Um dos mais importantes é constituído pelos múltiplos sectores da administração pública, onde a ineficiência - com raras e honrosas excepções - é a norma generalizada.
São numerosos os casos que admitem melhoria e que, multiplicados muitos deles por milhares de vezes cada um, formam um quantitativo total impressionante. Um exemplo muito simples e muito generalizado pode dar uma ideia das melhorias possíveis.
O baixo treino de dactilografia dos milhares de pessoas que "escreviam à máquina" é agora agravado com o advento dos computadores. Não são raros os casos de pessoal que, dispondo de sofisticados e caros computadores, apenas os utiliza para escrever... e só com dois dedos e extrema lentidão! A realização de cursos para treinar esse pessoal causará muito bons ganhos de produtividade.
Estas as razões porque me atrevo a sugerir aos economistas que incluam a "Produtividade", sistematicamente, nas suas análises e ajudem a detectar e a assinalar todos os casos em que algumas modificações, muitas vezes simples, podem causar grande melhoria nesse importante factor da economia.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado
**Destacado pelo jornal, em chamada por baixo do título