Publicado no "Jornal do Centro" de 10-10-2003:

O povo que não queria ser "descolonizado"

Miguel Mota

 

A propósito da polémica originada pelas honras militares prestadas na trasladação dos restos mortais do tenente coronel Maggiolo Gouveia, são escassos, na comunicação social, os relatos de muitos factos que ocorreram em 1974 e 1975. Porque os que têm muito mais completo conhecimento desses factos não parece querem relatá-los - assim contribuindo para que as mentiras vinguem e proliferem - fica aos que viveram essa época e entendem que não devem ficar no esquecimento alguns aspectos desse período negro da história de Portugal, a tarefa de contar, pelo menos, aquilo que era, então, do conhecimento geral.
Estava-se, em Portugal, em plena ditadura comunista de Vasco Gonçalves-PCP-MFA. (É possível que nem todos os elementos do MFA gostassem dessa ditadura, nem alinhassem com ela. Mas os que ali dominavam, talvez até sendo minoria, eram os oficiais comunistas, filiados ou não no partido). Os comunistas, como se sabe, nunca olharam a meios para atingir os seus fins. E foi assim que não tiveram quaisquer escrúpulos em esquecer todos os bons princípios do "Programa do MFA", apresentado na madrugada de 26 de Abril de 1974, onde taxativamente se declarava que nenhuma modificação importante seria feita sem consulta à população. (Hitler também dizia que "tratados são papéis"…). E foi assim que, abusivamente e com a ajuda de alguns pseudo democratas socialistas, resolveram reconhecer, como "legítimos representantes" de milhões de cidadãos portugueses do ultramar, os grupelhos terroristas, reconhecidamente armados e instigados por potências estrangeiras. E a eles entregar os destinos desses povos, sem qualquer consulta às populações, numa "escravização exemplar", criando ditaduras bem piores do que a que tinha existido em Portugal. Lembram-se das centenas de bons portugueses negros fuzilados na Guiné pelo governo de Luís Cabral? E foi assim que o 25 de Abril roubou a nacionalidade portuguesa a vários milhões de portugueses, sem lhes perguntar se era isso que eles queriam, numa acção vergonhosamente anti-democrática.
Mas o caso de Timor era muito diferente. Para os que não sabiam qual era a situação temos o patético testemunho do Dr. Almeida Santos, então Ministro do Ultramar (embora com o rótulo de Ministro da Cooperação Interterritorial…), após o 25 de Abril. No seu regresso duma visita a Timor, à chegada ao aeroporto, fez uma declaração em que disse ter recebido uma lição de portuguesismo, pois os timorenses eram patrioticamente portugueses. E acrescentou que "não era patrioteirismo barato, mas patriotismo autêntico". Rematou, num tanto agastado, dizendo qualquer coisa como " já que Timor não quer ser descolonizado…"
Quem viu e ouviu essa declaração na TV, só se admirou por o Dr. Almeida Santos ter ficado surpreendido com o que encontrou em Timor, pois sabia-se que essa era a realidade, como foi confirmado por alguns depoimentos posteriores. Como é que o Dr. Almeida Santos, um senhor tão politizado e ainda por cima vivendo em Moçambique, ou seja, bastante mais perto, não sabia que os timorenses eram portugueses e queriam continuar a sê-lo?
Mas os ditadores comunistas que dominavam Portugal - e estavam ao serviço do então poderoso império soviético - não podiam desprezar a possibilidade de ter um tumorzinho comunista instalado naquela zona, uma espécie de Cuba a funcionar ditatorialmente como ponto de apoio naquela região.
O minúsculo partido comunista timorense, a FRETILIN, sem qualquer implantação no território, foi por isso armado com armas entregues pelo exército português, às ordens dos ditadores de Lisboa, para ali tomar o poder. Não foram divulgados muitos pormenores em Lisboa, mas algumas notícias e alguns boatos circulavam na metrópole sobre o que se estava a passar. Soube-se, mesmo, que dois majores comunistas tinham ido de Lisboa a Timor, num avião Boeing 707, para organizar essa pretensa "independência", que não seria mais que uma escravidão a Moscovo.
Maggiolo Gouveia deve ter-se apercebido do que se estava a passar e, como bom português, tomou o caminho que lhe parecia mais de acordo com os sentimentos dos timorenses, que queriam continuar a ser portugueses.
Ao longo dos anos a Indonésia tinha feito algumas tentativas para anexar a parte portuguesa da ilha de Timor, mas desistira, perante o sentimento dos timorenses e já tinha aceite que essa área era parte de Portugal. O ditador Suharto tinha substituído o ditador comunista Sukarno, matando perto de um milhão de comunistas. Naturalmente, quando viu que se estava a preparar a instalação dum regime comunista naquela parte da ilha, entendeu que o caso mudava de figura. Perante a perspectiva da instalação dum regime comunista - uma espécie de Cuba - apelou para Lisboa, para que o governo não consentisse esse facto. Certamente não compreendeu que o que estava ali a ser feito era tudo comandado pelo governo comunista que dominava Portugal e queria instalar em todos os territórios do mundo português regimes comunistas, como conseguiu nalguns locais.
Logo que teve a confirmação dessa realidade, preparou a invasão. E não é de admirar que os americanos (até com a amarga experiência de Cuba) não gostassem de ver ali algo semelhante e apoiassem a invasão. É cómica a acusação agora feita pelos esquerdistas de que foi a acção de Maggiolo Gouveia (totalmente de acordo com o que a Indonésia já tinha aceite) que motivou a invasão!
O que se seguiu, embora ainda também com alguma nebulosidade, já é mais conhecido. Aos portugueses de menos 35 anos que, embora já nascidos, não tinham idade para se aperceberem dos factos, as histórias que lhes contam estão mais que distorcidas. Mas basta lerem jornais da época e alguns relatos que apareceram mais tarde, para verem como têm estado a ser enganados. As próprias declarações do Dr. Almeida Santos (que a RTP nunca mais transmitiu!) vieram relatadas em jornais. E foram raros os casos em que, mais tarde, foi apontado o descarado "erro", quando do referendo em Timor, de dar apenas as alternativas de Indonésia ou independência, "esquecendo" a alternativa de saber se queriam voltar a ser portugueses. Não sabemos qual seria o resultado, mas a religiosidade com que muitos esconderam, ao longo de vinte anos, a bandeira portuguesa e como os vimos na televisão a cantar o nosso hino nacional, são um bom indicativo.

Miguel Mota
Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado