Publicado no "Diário de Notícias - Economia" em 3 de Julho de 2006

Salvar a agricultura

Miguel Mota*

O que caracteriza uma zona como "rural" é o facto de nela a actividade principal ser a agricultura. Por esse facto, a única forma de a desenvolver é desenvolvendo a sua agricultura, pois é impossível estar continuamente a nela injectar dinheiro para manter vida artificialmente.
O mundo rural vai receber de Bruxelas 600 milhões de euros por ano (DN Economia, 22-6-2006). Isso significa não haver a desculpa da "falta de verba" para fazer, realmente, o desenvolvimento da agricultura e não apenas injectar nela alguns subsídios.
Ao longo de muitos anos tenho chamado a atenção para o facto de o desenvolvimento da agricultura só ser possível quando o Ministério da Agricultura possuir, amplos e eficientes, dois serviços fundamentais: uma investigação agronómica que descubra, constantemente, as formas de agricultar melhor (no sentido mais lato) e um serviço designado de extensão agrícola, que leve até aos agricultores os conhecimentos existentes e os que vão sendo fabricados pela investigação. Nas últimas décadas o nosso Ministério da Agricultura tem mostrado que não sabe isso e vem destruindo o que havia desses serviços, com os resultados bem evidentes em qualquer super ou hipermercado, perante as quantidades astronómicas de produtos agrícolas importados e que aqui devíamos produzir, melhor e mais barato, como tenho denunciado.
Se daqueles 600 milhões de euros apenas 10% (60 milhões) forem gastos em investigação agronómica e 5% (30 milhões) forem gastos em extensão agrícola, teremos o suficiente para, com o actualmente existente no Ministério da Agricultura, iniciar imediatamente o "Programa intensivo de Investigação Agronómica e de Extensão Agrícola" que já propus e fazer a nossa agricultura desenvolver-se de forma a dar à economia nacional uma contribuição bem maior do que actualmente, embora esta esteja a ser muito superior ao que apregoam aqueles que, só para benefício duns quantos e prejuízo de todo o País, tentam a todo o custo fazer com que Portugal deixe de ter agricultura.
Miguel Mota