Publicado no "Linhas de Elvas" de 16 de Fevereiro de 2006

A agricultura portuguesa no século XIX... e agora

Miguel Mota*

O Eng.º Agrónomo Manuel Prates Canelas publicou no "Diário do Sul" de 26 de Janeiro de 2006 um interessante artigo (1) em que relata alguns acontecimentos da organização dos Serviçoa Agrícolas em Portugal no último quartel do Século XIX.
Com base em consultas aos "Diários do Governo" e a documentos vários, na Torre do Tombo (segundo informa), apresenta um pormenorizado relato do que eram já importantes trabalhos de investigação agronómica no Alentejo, nesse final do Século XIX, há mais de 100 anos. Nessa altura os principais problemas eram de Química Agrícola, para compreender os mecanismos da fertilidade dos solos e a forma de a aumentar. Também importantes eram alguns problemas de sanidade vegetal, entre eles avultando o caso da filoxera, que tantos prejuízos causou à viticultura europeia. Falhado o combate químico a essa praga importada da América, a solução foi encontrada enxertando as videiras europeias sobre cavalos de videiras americanas.
Os Serviços Agrícolas instalaram para o efeito campos experimentais, laboratórios de análise e pelo menos um viveiro de videiras americanas para fornacer aos agricultores os porta enxertos americanos. Isto mostra o que era uma louvável compreensão, já nesse empo, da importância da investigação agronómica para o progresso da agricultura.
O Alentejo constituía, nessa altura, a 8ª Região Agronómica e eram os próprios agricultores e as suas associações, como a Associação Agrícola Eborense, depois transformada em Sociedade Cooperativa, a instigar o governo a instalar esses serviços, de que já então sabiam ser eles os mais directos beneficiários.
Compare-se essa actividade de há mais de 100 anos com o que se tem passado nas últimas décadas com a acção dos nossos Ministros da Agricultura e dos seus acólitos. Em plena época da ciência, qando se sabe que sem ela não há progresso (nem "inovação", palavra agora muito em voga mas que também os nossos dirigentes não inventaram, pois apenas copiaram o que começou a ser usado em larga escala "lá fora"), esses ministros têm andado a destruir, sistematicamente, o que havia de investigação agronómica. E, infelizmente, os nossos agricultores e as suas organizações, em vez de instigarem os ministros a ter esses serviços a funcionar ampla e eficientemente (de que, repete-se, são eles os primeiros beneficiários), mostram que as suas preocupações se limitam ou quase aos subsídios. A agricultura portuguesa continua a afundar-se e, com ela, a nossa economia. Talvez ressurja, dentro de alguns anos... nas mãos de agricultores espanhois!
(1) Canelas, Manuel Prates - "Memória Agrícola de Évora. O agrónomo chefe, Gomes Ramalho, a Tapada do Chafariz dos Leões, e o ex-Convento e Cerca de S. Bento de Castris", Diário do Sul de 26 de Janeiro de 2006
________________________________
* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética