Publicado no "Linhas de Elvas" de 27-1-2005:

A seca

Miguel Mota*

O período de seca prolongada que estamos a atravessar (escrevo em 23-1-2005) e as notícias e comentários (nem sempre correctos) que aparecem na comunicação social, levam-me a recordar um artigo que publiquei num período igualmente de grande seca. O título era "Silagem, fenos e reservas estratégicas" ("Vida Rural" Nº 1543, 2ª quinzena de Março de 1992) e chamava a atenção para a necessidade do agricultor ter de estar sempre prevenido para a eventualidade, que não pode controlar, de períodos de carência de alimentos para o gado, nomeadamente pastagens.
Começo por dizer que não acredito no que vi na comunicação social de gado a "morrer de sede". Portugal não está tão carenciado de água que esta não chegue para dar de beber aos animais. Se houve algum caso em que isso sucedeu, foi por negligência do agricultor. (Quantos dias leva uma ovelha para morrer de sede?).
Para os casos de falta de pastos é que são necessárias as "reservas estratégicas" de silagem e fenos. Essa falta de pastos pode não ser causada apenas pela seca mas também, por exemplo, por inundações. Só dispondo de silagem e de fenos o agricultor pode resolver satisfatoriamente o problema e evitar prejuízos avultados.
É claro que uma seca é sempre fonte de prejuízos. Mas esses e outros males são frequentemente utilizados por aqueles que, ao longo das últimas décadas, tudo têm feito para destruir a nossa agricultura. (Os únicos beneficiários dos males da nossa agricultura são os importadores de produtos agrícolas. Os custos para os portugueses são enormes). Aqui há anos, um senhor que demonstrou não perceber nada de agricultura, "decretou", no "Expresso", que a seca que então se verificava fazia com que acabasse definitivamente a agricultura em Portugal. Como o "Expresso" não publicou o que lhe enviei para elucidar os leitores, publiquei-o no "Linhas de Elvas" de 2 de Junho de 2000 ("Continuam erradíssimas as ideias sobre a agricultura"). No ano seguinte, perante o facto de ainda existir a agricultura que ele declarara extinta, publicou no "Expresso", dando o dito por não dito, "A agricultura está viva mas...". Como o "Expresso" também não quis publicar a carta em que tentava esclarecer os leitores, publiquei-a no "Linhas de Elvas" de 26 de Outubro de 2001, integrada no artigo "Continuam muito erradas as ideias sobre a agricultura".
Os agricultores portugueses, além de terem de combater aqueles que querem destruir a sua actividade (e deviam fazê-lo de forma bastante mais enérgica), têm de saber defender-se, em todos os casos em que isso é possível, dos factores adversos. Na agricultura não é possível esperar que tudo corra pelo melhor, com o S. Pedro a mandar o sol e a chuva exactamente como são precisos, na eira e no nabal. Os termos de referência não devem ser os "anos bons", mas sim os "anos médios", considerados num mínimo de cinco a seis anos. E convém ter presentes os extremos, ou seja, qual é o máximo que se pode esperar dos anos excepcionalmente bons e quais os valores atingidos nos piores anos. São muitos e graves os problemas a enfrentar na gestão da empresa agrícola, mais graves e mais difíceis do que em muitas outras actividades, devido aos factores que ela não controla. Para isso se exige uma intensa e constante produção de conhecimentos, que ajudem o empresário a enfrentar as dificuldades. E porque estas são muitas, a agricultura exige que nela estejam os melhores, os mais bem informados e os mais capazes de tão difícil gestão.
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*Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética.