Publicado na "Sintra Regional" Nº 8, Pag. 25. Janeiro de 2005:

Sintra e a Agricultura

Miguel Mota*

Sintra é uma região privilegiada sob variadíssimos aspectos. A beleza da sua paisagem, a amenidade do seu clima e uma situação que lhe permite possuir excelente "campo" e magníficas "praias", tornaram-na famosa como zona turística e como local de eleição para residir. Também está de há muito ligada à aviação, pois aí se localiza uma importante base aérea que, alem da parte militar, deu guarida durante muitos anos - e ainda dá a uma parte - ao Aero Club de Portugal. Mas também tem importância num sector que parece estar a ser negligenciado: a Agricultura.
Sendo um concelho grande e ainda com boas áreas agrícolas, teve particular fama em relação a, pelo menos, três produtos da terra: o "vinho de Colares", os "morangos de Sintra" e os saborosíssimos "pêssegos Maracotões", também predominantemente na região de Colares e de qualidade imensamente superior à dos produtos que hoje encontramos nos mercados.
O vinho de Colares, especialmente produzido nas areias e com a casta "Ramisco", marca presença com a sua imponente Adega Regional. Depois dum período áureo, de que a Adega Regional é a prova que ficou, atravessou décadas de altos e baixos e creio estar em tempos recentes novamente em fase ascendente. Bem hajam os homens que metam ombros à tarefa de dar ao vinho de Colares, tão característico e diferente de muitos outros, o lugar de destaque que já teve, a bem dos apreciadores e da economia do concelho.
Os antigos, famosos e aromáticos morangos de Sintra, que eram vendidos em elegantes cestinhos de vime, creio que desapareceram. Só vemos, nos supermercados, morangos de belo aspecto, grandes e brilhantes... mas insípidos e que só satisfazem os que não tiveram a dita de comer os morangos de Sintra. Será possível recuperá-los?
Os pêssegos Maracotões, tão diferentes dos de aparta caroço, ácidos e pouco aromáticos que se encontram nos mercados, alguns vindos de longes terras, também desapareceram. E daqui faço um apelo aos sintrenses, perguntando-lhes se me podem informar se ainda existem algumas árvores, quiçá nalgum quintal caseiro, que permitam recuperar essa riqueza da agricultura de Sintra e de Portugal. É que, se já não existe nenhuma dessas árvores, perdemos para sempre tais saborosos frutos. Apesar das maravilhosas descobertas da ciência no campo da Genética, ainda não somos capazes de fabricar um gene à medida dos nossos desejos. Quando desaparece o último indivíduo que possuía um determinado gene ou conjunto de genes, eles ficam perdidos para sempre. Desaparecidos os genes dos dinossauros com a morte do último desses animais, já não os podemos recuperar, pese embora a brilhante ficção científica do Parque Jurássico. Eu temo que o mesmo tenha sucedido aos pêssegos Maracotões de Colares. Aguardo, com esperança, que algum residente do concelho de Sintra me dê a grata notícia da existência de uma ou algumas árvores dessa variedade. Só se ainda existirem será possível recuperar tão valioso produto agrícola.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado. Presidente da Sociedade Portuguesa de Genética.