Publicado na "Gazeta das Aldeias", Ano 107, Nº 3095, Outubro-Dezembro de 2002:

A agricultura e a distribuição dos subsídios

Miguel Mota*

 

Graças às muito erradas politicas agrícolas internas durante as últimas décadas, Portugal tem a pior agricultura dos países da UE. Mesmo a Grécia, só nalguns sectores é inferior a Portugal.
No entanto, se excluirmos o pouco significativo Luxemburgo, apenas a Finlândia e a Suécia, países que tarde entraram na União, receberam em 2OO1 um pouco menos que Portugal em subsídios da Política Agrícola Comum (PAC).
Quem mais recebeu foi a França, que nesse ano recebeu 9.230 milhões de euros, enquanto Portugal se ficou pelos 880 milhões. A França recebeu, nesses subsídios, bastante mais do que a sua contribuição para a UE, enquanto Portugal pagou quase tanto como recebeu. A Espanha recebeu 6.180 milhões, muito mais do que a sua contribuição para a União Europeia. A Grécia recebeu 2.610 milhões, também bastante mais do que pagou. A Grã Bretanha e a Áustria receberam praticamente o mesmo que pagaram. A Irlanda, país que era tão pobre como Portugal quando entrou na então CEE, recebeu 1.580 milhões de euros, quase o dobro do que recebeu Portugal e bastante mais do que pagou à União.
Esta comparação com a Irlanda mostra a continuação de negociações defeituosas que, além dos enormes erros das políticas agrícolas internas, não souberam trazer para Portugal aquilo a que, por comparação com os outros casos, indiscutivelmente tínhamos direito. Quando, há mais de dez anos, se apregoava a excelência das nossas negociações, em Bruxelas, no sector da agricultura, contestei tais declarações e escrevi ("Expresso" de 17-7-93): "Se Portugal tivesse recebido, em proporção, o mesmo que a Irlanda, teriam vindo para o país muitos milhões de contos mais". Pelos vistos, continuou em 2001 a mesma situação de país desfavorecido na repartição do bolo e, sendo o mais pobre (continuamos na cauda da Europa...) recebe muito pouco mais do que paga para a UE!
Ou Portugal muda urgentemente as políticas agrícolas erradíssimas que tem seguido e entra no caminho - simples, aliás - que venho preconizando há décadas, ou os portugueses terão de se resignar a continuarem a ser os pobrezinhos da UE.
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* Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado